um telemóvel em cada ouvido
voz bem colocada
um jeep enorme em cima do passeio
dona Menina Gaja
ia toda em cima da vida
como se tudo o que soubesse fosse
que só existia ela
não importava o que fazia
nem como
desde que o ego dela se salvasse
e avançava
ameaçadora e inflexível
já no balcão do café
exigia de quem a atendia
uma atenção quase tuberculosa
à sua voz
se não arriscar-se-ia
(o escravo do lado de lá)
a levar com segunda dose
percebi na vertigem de um minuto
problemas terríveis que enfrentava
comendo e falando aos telemóveis
não sabia se bahamas
se cuba
se república dominicana
se a festa era de noite
se de dia
se o programa metia strip-tease
ou não metia
se ia buscar a criança à escola
ou se não ia
tentei ouvir e concentrei-me
mas bastou uma ligeira distracção que tive
e quando o meu olhar quis recuperar
e correu do balcão para a rua
para a encontrar
já só vi a traseira do jeep
em jeito de traseira de rinoceronte
zarpar e fugir
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