domingo, novembro 27, 2005

dona menina gaja

um telemóvel em cada ouvido
voz bem colocada
um jeep enorme em cima do passeio
dona Menina Gaja
ia toda em cima da vida

como se tudo o que soubesse fosse
que só existia ela
não importava o que fazia
nem como
desde que o ego dela se salvasse

e avançava
ameaçadora e inflexível

já no balcão do café
exigia de quem a atendia
uma atenção quase tuberculosa
à sua voz
se não arriscar-se-ia
(o escravo do lado de lá)
a levar com segunda dose

percebi na vertigem de um minuto
problemas terríveis que enfrentava
comendo e falando aos telemóveis
não sabia se bahamas
se cuba
se república dominicana

se a festa era de noite
se de dia
se o programa metia strip-tease
ou não metia
se ia buscar a criança à escola
ou se não ia

tentei ouvir e concentrei-me
mas bastou uma ligeira distracção que tive
e quando o meu olhar quis recuperar
e correu do balcão para a rua
para a encontrar
já só vi a traseira do jeep
em jeito de traseira de rinoceronte
zarpar e fugir

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