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sábado, novembro 30, 2019

Miguel Torga no blog

Miguel Torga foi uma das figuras marcantes do nosso panorama literário. Nesta minha divagação à solta (e também divulgação) de poetas portugueses, lembro hoje Miguel Torga. 
Digo lembro, porque efetivamente não é minha intenção alargar a "divagação e divulgação" às extensas obras de cada autor.
Apenas os evoco, pouco mais do que escrevendo os seus nomes e partilhando algumas palavras de entre as muitas que escreveram. 
Para um conhecimento maior, há que pesquisar a vida e obra de cada um. Ler e reler alguns dos seus livros.
Mas isso fica ao critério do estimado leitor.


Fiquem bem,



sexta-feira, maio 10, 2019

Dia Mundial do Livro


Nota breve do autor do blog:

Recebi este email que partilho com muito prazer.
Não é preciso concordar ou não concordar. O testemunho é o que conta no caso vertente. E na verdade o "desabafo do professor, jornalista e escritor", concorde-se ou não com o mesmo nas suas opções políticas, tem matéria significativa para servir pelo menos de reflexão nos dias que correm.
Partilho como recebi.

António Esperança Pereira


Mesmo a propósito no Dia Mundial do Livro…

Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa
universidade de Montevideo. Deixou o ensino, que antes o apaixonava e
explica porquê.

"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade.
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o
facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não
conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber
selfies.

Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de
lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem
mal-educados, ainda tinha algum efeito.

Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no
combate. Ou que esteja a fazer algo mal.

Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito
ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil
explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem
vêem sentido em estar informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20
conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não
fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na
Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à
'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos?
Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa?

Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens
não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão
desinformadas para o jornalismo é complicado.

É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não
existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma
notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se
vendiam, ainda, jornais e revistas na rua.

Estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e
afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. A incultura, o
desinteresse e a alienação não nasceram com eles.

Foram-lhes matando a curiosidade e, cada professor que deixou de lhes
corrigir as faltas de ortografia, ensinou-lhes que tudo é mais ou
menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são
vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.

E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom,
as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não
quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei
assim.

O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não
suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a
resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que
a aula terminasse. Eu também."

LH

quarta-feira, novembro 15, 2017

Rico é quem tem tempo


Nosso comentário: Partilho hoje com os estimados leitores um texto, tal como o recebi, da autoria do escritor Mia Couto.
Sem comentários...
 01
“E a juventude vai escoando entre os dedos.
Era uma vez uma geração que se achava muito livre.
Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.
Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguer, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.
Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.
Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.
Frequentou as melhores escolas.
Entrou nas melhores faculdades.
Passou no processo seletivo dos melhores estágios.
Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão.
E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.

01a

Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.
Ninguém podia os deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.
O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.
O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que necessário e o que era vício.

06

O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto.
Mas, sabe como é, né? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir.
Essa geração tentava se convencer de que podia comprar saúde em caixinhas. Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano que fazia diariamente ao próprio corpo.
Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent.
Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir.
Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim.

04

Mas para a vida, costumava ser não:
Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito.

Aos 25 eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa.
Aos 30 eles não foram no aniversário de um velho amigo porque ficaram até as 2 da manhã no escritório.
Aos 35 eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.
Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente começavam a se perguntar se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia.
Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias em um hotel fazenda pudessem fazer algum sentido.
Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.
Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro.
Só não tinha controle do próprio tempo.

03

Só não via que os dias estavam passando.
Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que os bónus do final do ano não comprariam os anos de volta.”
02
Texto de Mia Couto

Fiquem bem,

sábado, agosto 09, 2014

No final quem ganham são os alemães...


Nosso comentário:

Via e-mail recebi este excerto de um artigo do Miguel de Sousa Tavares, escritor português, jurista, também comentador e crítico, entre outras coisas.
Goste-se ou não se goste, Miguel de Sousa Tavares é daquelas personalidades que fala com a boca aberta. Quero eu dizer que quando diz qualquer coisa, ouve-se mesmo.
Normalmente muito polémico no que afirma, há por isso quem goste e quem não goste.
Neste excerto de artigo que hoje divulgo, chegado até mim via e-mail, o tema central do autor é a Alemanha. 
Ora, quando se fala da Alemanha, por variadíssimos motivos que não vêm aqui para o caso, ficamos logo de olho e ouvido atento.
É o caso do texto abaixo que, sem concordar no que nele é dito, nem deixar de concordar, divulgo-o exactamente para fomentar o espírito crítico e polémico do que nele é afirmado.

Fiquem bem,

António Esperança Pereira


Excerto do artigo do Miguel Sousa Tavares...


Não é só no futebol que no fim ganham os alemães. É no futebol, no atletismo, no automobilismo, no andebol, na equitação, no ski. É no desporto, na música, na literatura, na arquitectura, na construção de carros, de electrodomésticos, de máquinas industriais, etc, etc. Podemos gostar ou não, podemos até desdenhar, mas a verdade é esta: no fim, ganham os alemães. E ganham, porquê? Porque trabalham mais, porque se focam nos objectivos, porque valorizam os resultados. Se alguém quiser entender por que razão a Alemanha está farta dos países do sul da Europa, ponha-se na pele de um alemão. E compare a selecção alemã, campeã do mundo, com, por exemplo, a portuguesa. A selecção alemã que foi ao Brasil não tinha vedetas nem pequenas, nem médias, nem grandes. Não se davam ares de vedetas, nem fora nem dentro do campo. Umas vezes, esmagaram e fascinaram com o seu futebol de carrossel demolidor, outras vezes — como na final — correram, lutaram, sofreram, sangraram e, no fim, ganharam. Nenhum jogador quis dar nas vistas por outra razão que não fosse jogar futebol. Ali não havia ninguém com tatuagens, com penteados ridículos, com figurinos tipo Raul Meireles, com brincos nas orelhas, com pose de deuses inacessíveis de auscultadores enfiados nos ouvidos, fingindo-se alheios a tudo o que os rodeava, como se fossem superiores à gente comum. Não, os alemães passaram pelo Brasil confraternizando, querendo ver e saber, curiosos e contentes por ali estarem — tão diferentes dos nossos heróis do mar, fechados para o mundo em hotéis-fortaleza, onde só entravam cabeleireiros, tatuadores e agentes. Os alemães não passaram as conferências de imprensa a debitar lugares comuns e frases feitas sem conteúdo, próprias de quem jamais foi visto com um livro, uma revista ou um jornal na mão e passa os tempos livres a debitar selfies e banalidades nas redes sociais, imaginando-se o contra do mundo. Os alemães mandaram ao Brasil uma verdadeira embaixada, para servir o futebol e honrar o seu país, enquanto nós mandámos um grupo de homens mimados e convencidos, comandados por dirigentes que não lhes souberam exigir que estivessem, em todos os aspectos, à altura da responsabilidade. Mas, como em tudo o resto que fazem, os alemães também mandaram um grupo de jogadores que se portaram como verdadeiros profissionais, que trabalharam e treinaram no duro, enquanto que nós mandámos uma excursão de rapazes que se convenceram que os penteados e as tatuagens, por si só, conseguem ganhar jogos ou então ficar na fotografia que parece bastar-lhes. Não é por acaso que o campeonato alemão tem estádios cheios e que o público dá por bem empregue o seu tempo e o seu dinheiro, enquanto que o principal do nosso campeonato é jogado em estádios vazios e vivido sobretudo nos programas televisivos dos dias seguintes, a discutir se foi bola na mão ou mão na bola ou se a entrada de uma equipa em campo 2 minutos e 45 segundos depois da hora marcada condicionou ou não decisivamente o resultado de outro jogo. Nós discutimos, eles jogam. Nós tatuamos, eles treinam. Nós penteamos, eles correm. Nós somos recebidos e pré-condecorados pelo Presidente antes de começar, eles são apoiados na bancada pela chanceler quando chegam à final. Nós somos heróis antes de partir, eles são vencedores depois de ganharem. Não é por acaso que, desde que me lembro e tanto quanto me lembro, só dois jogadores portugueses (Paulo Sousa e Petit) jogaram no campeonato alemão e só um jogador alemão jogou no campeonato português (Enke). Não perguntem o que é que os alemães têm. É toda uma sociedade fundada no trabalho, no mérito, na responsabilidade, nos resultados. Goste-se ou não, isto não tem nada a ver com o fado. É outra cultura, é outra coisa.>>

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Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...