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quinta-feira, janeiro 09, 2020

Mário Sá Carneiro no blog

Mário Sá Carneiro


Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua bôca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pêna de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me nalma o crepusculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Alcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Fiquem bem,


Partilho abaixo um belo poema do autor, de uma profundidade e sensibilidade "fascinantes".

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.




quinta-feira, dezembro 26, 2019

Ary dos Santos, Poeta e declamador


Nasceu a 07 Dezembro 1937
(Lisboa)
Morreu em 18 Janeiro 1984
(Lisboa)
José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um poeta e declamador português. Ficou na História da música portuguesa por ter escrito poemas de 4 canções vencedoras do Festival Eurovisão da Canção.




Poeta castrado não!


Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

ORIGINAL É O POETA

que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Fiquem bem,



sábado, novembro 30, 2019

Miguel Torga no blog

Miguel Torga foi uma das figuras marcantes do nosso panorama literário. Nesta minha divagação à solta (e também divulgação) de poetas portugueses, lembro hoje Miguel Torga. 
Digo lembro, porque efetivamente não é minha intenção alargar a "divagação e divulgação" às extensas obras de cada autor.
Apenas os evoco, pouco mais do que escrevendo os seus nomes e partilhando algumas palavras de entre as muitas que escreveram. 
Para um conhecimento maior, há que pesquisar a vida e obra de cada um. Ler e reler alguns dos seus livros.
Mas isso fica ao critério do estimado leitor.


Fiquem bem,



quinta-feira, junho 09, 2016

Milagre


Nosso comentário:

Hoje é véspera do 10 de Junho, dia importante no calendário de feriados nacionais em Portugal. 
É nem mais nem menos, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Celebra este feriado o dia 10 de Junho de 1580 que foi a data em que o insigne poeta luso Luis Vaz de Camões faleceu.
A talho de foice cumpre-me relembrar que uma série de feriados importantes de Portugal tinham ido à vida, que é como quem diz, tinham sido extintos, pelo anterior governo austeritário de direita chefiado por Passos Coelho.
Não foi o caso deste, por acaso. Quanto aos outros, os feriados extintos estão felizmente a ser repostos pelo atual governo de António Costa.
Dito isto, deixo uma pequena história/anedota que vem muito a propósito com a reposição dos feriados: MILAGRE.

Desejo a todos um ótimo feriado,

António Esperança Pereira



MILAGRE:

Pela primeira vez na minha vida, na semana passada fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e partilhei as práticas e orações dos presentes.
De repente, o Pastor se aproximou do lugar onde estava. 
Olhou-me fixamente e apontou-me o dedo.
Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as suas mãos na minha cabeça e clamou em voz alta:
-Você vai caminhar.
Eu respondi-lhe baixo:
-Mas não tenho nenhum problema de locomoção.
Ele ignorou minha resposta e quase gritando, voltou a exclamar:
-Irmão, você vai caminhar!
Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a chorar:
-Você vai caminhar!
Mais uma vez, tentei explicar que não tinha nenhum problema com meus membros inferiores, mas foi em vão.
Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu:
-Você vai caminhar!!
Enquanto a Assembleia em transe gritava ainda mais forte:
- Você vai caminhar!!!!
Optei por me calar e não dizer mais nada.

Quando o ato acabou deixei a Assembleia e, acredite ou não, o maldito pastor tinha razão:
Tinham-me gamado o carro!!!

sábado, janeiro 24, 2015

Éden vivencial no Youtube...


Nosso comentário:

Havia algum tempo já que não partilhava poemas no youtube em formato de video.
Ontem mesmo chegou a vez de mais um curto poema ficar na galeria do youtube em fundo azul celeste.
A cor é ténue, quase incolor, mas a ideia é essa, a de colocar uma cor que ligue com o poema: suave, ténue, incolor e indolor nas palavras que mostra.
Uma música de fundo, uma curta mensagem tirada de um dos meus livros, colocada agora no famoso youtube, para que mais pessoas possam ler e inspirar-se através da poesia.
É bom escrever, emprestar algum tempo, ou muito tempo até, ao que nos vai na alma, ao que está trancado quantas vezes e só sai nas palavras que descobrimos dentro de nós.
Depois é muito grato a quem escreve receber mensagens como a que segue e que nos deixam a nós próprios (quero dizer, a quem escreve) com vontade de escrever ainda mais.

"Li mesmo agora o poema...pois como sempre fico assim
sem jeito...é que és mesmo um GRANDE POETA...
Nem tenho palavras para dizer o quanto me surpreendes...
Escrever como tu o fazes transmitindo sentimentos, realidades, estados de alma
é só para alguns...poucos...de que tu fazes parte...és o MAIOR...
Um beijo grandeee." 

Fiquem bem

António Esperança Pereira




domingo, setembro 07, 2014

Os patos do Bocage



Nosso comentário:


Em dia de desaire da selecção nacional de futebol, pois perdeu com a modestíssima selecção da Albânia por 1-0, ainda por cima em casa, na cidade de Aveiro, divulgo um e-mail que faz rir.
Sobretudo para os que ficaram desmoralizados com este ou com outro evento menos feliz, sempre ajudará a levantar um pouco o moral.
Sem mais delongas, aqui fica o e-mail tal como o recebi.


Fiquem bem,

António Esperança Pereira


Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.
Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação.

Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
-Doutor, afinal levo ou deixo os patos?


sábado, maio 31, 2014

Homens com Gripe...



Nosso comentário:


Muitos conhecerão já o POEMA de António Lobo Antunes que divulgo abaixo. Os que dele tiverem conhecimento, podem voltar a ler que não será demais.
Aos que não tiveram ainda a oportunidade de ler este Poema/Sátira do famoso escritor português em apreço, recomendo vivamente que o façam, pois ficarão certamente com melhor disposição e um humor melhorado.
Atendendo aos tempos que correm... animar um pouco já não é mau!
Deixo-lhes então o POEMA SATÍRICO do António Lobo Antunes.


Fiquem bem

António Esperança Pereira


HOMENS com GRIPE - ANTÓNIO LOBO ANTUNES


Para variar uma coisa engraçada do Lobo Antunes....


Poema aos homens com gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes - (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...