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segunda-feira, abril 15, 2013

Vira-se o feitiço contra o feiticeiro?


Nosso comentário:


Duas notícias a que hoje dou relevo em baixo no blogue.
Não pela novidade das mesmas, pois elas vêm sendo o pão nosso de cada dia nas afirmações, quer de Atenas, quanto à dívida alemã por danos de guerra, quer nas declarações de George Soros, sempre muito crítico em relação às políticas alemãs no seio da União Europeia.
São todavia duas peças incómodas para um país poderoso, a Alemanha, que, há que dizê-lo, se meteu a ela própria num caminho sinuoso em relação à União Europeia, do qual poderá não ser fácil sair.
Temos pena que assim seja, pois foi com grande regozijo que assistimos à queda do muro de Berlim e à reunificação pacífica e célere das duas Alemanhas.
Foi tempo de festa.
Não se pode nem se deve esquecer o pior dos lados da história, pelas lições que dele há a tirar, todavia partilhamos a ideia de que águas passadas não movem moinhos.
E, se é certo que a memória da II Guerra Mundial ainda estava muito fresca para um "sonho europeu", pelas enormes sequelas deixadas, tudo levava a crer que um tal sonho europeu, entretanto posto em marcha, o envolvimento saudável que pareciam ter os países pioneiros, poderiam ser a antecâmara de uma nova história por escrever. 
Parecia possível a partir de então, passar uma esponja sobre os lados menos positivos dessa tragédia a que a II Guerra Mundial nos levara e continuar em frente. Porque é caminhando que se faz caminho, não o contrário.
Infelizmente tem-se feito borrada. 
Afirmações infelizes de políticos, e não só, surgem a toda a hora e a todo o instante: o "norte europeu" e o "sul europeu" parecem cada vez com mais dificuldade de acreditarem na viabilidade do tal sonho.
Está criado o terrenos propício a velhos fantasmas.
Os bons e os maus, os preguiçosos e os trabalhadores, os ricos e os pobres, os aplicados e os malandros, os cumpridores e os esbanjadores, os fortes e os fracos, e assim por diante.
Uma pena tanto egoísmo em tão pouco espaço. Tanto orgulho e preconceito que só minam a união, o amor, a modernidade, a causa nova, a liberdade, a confiança.
Pessoalmente gostaria que vingasse a tese dos sonhadores. 
Porque, uma Europa Unida, pacífica, forte, coesa, inclusiva, democrática, faz falta a si própria e ao mundo.
A tese contrária, "uma Europa Manta de Retalhos", já todos sabemos pela história mais antiga e mais recente, no que sempre deu. 

PS. Deixo excertos das notícias que motivaram o comentário



Fiquem bem, António Esperança Pereira
 
 
http://lusito.bubok.pt/




Grécia exige que Alemanha pague dívidas da II Guerra


Governo de Antonis Samaras vai recorrer aos tribunais internacionais para exigir à Alemanha que pague o que ainda deve em reparações da Segunda Guerra Mundial.

 O "jornal i" escreve na sua edição de hoje que "depois da Grécia apurar que a Alemanha lhe deve mais de 162 mil milhões de euros em reparações de guerra, o tom do diálogo começa a subir entre os dois países que já ponderam recorrer aos tribunais internacionais para resolver a disputa".
Segundo avança o jornal, "69 anos depois da saída das tropas de Hitler do país e na mesma semana em que consegue desbloquear a próxima tranche do empréstimo da troika, a Grécia mostra-se disposta a ir até às últimas consequências para que lhe sejam reavidos mais de 162 mil milhões de euros em reparações de guerra que nunca foram pagas na totalidade pela Alemanha - com juros de mora. Wolfgang Schauble, ministro das Finanças alemão, já acusou os gregos de irresponsabilidade por trazerem esse assunto de volta à discussão pública, mas Dimitris Avramopoulos, ministro dos Negócios Estrangeiros grego, avisou que Atenas não vai esquecer o passado e que serão, em última instância, os tribunais internacionais a decidir".



Em entrevista ao 'El País'

Saída da Alemanha do euro seria milagrosa, diz Soros


Em entrevista ao jornal espanhol 'El País', o investidor norte-americano George Soros é bastante crítico das politicas alemãs no seio da União Europeia.
Segundo Soros, "a Alemanha deve decidir se quer refazer a UE da forma que estava originalmente destinada a ser, o que pressupõe aceitar as responsabilidades e cargas necessárias para avançar nessa direção, ou deve considerar sair do euro e deixar ao resto dos países que creem nos eurobonds, possam combater a crise". 

segunda-feira, setembro 03, 2012

"Um canhão pelo cu", texto incendeia a Espanha...


O texto que está a incendiar Espanha
O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflecte sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cú", e é escrito por Juan José Millas.
 
 
Um canhão pelo cú
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millas
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Fiquem bem, António Esperança Pereira


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Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...