sexta-feira, maio 04, 2007

intuição versus razão

Que pena os papéis as etiquetas
a contradição que é
termos inteligência para entender
que temos que ser assim
para usufruir de bens materiais
que nos dão prazer

Só que a razão
que é necessária
não chega
carrega-nos de leis deveres
quantas vezes comportamentos
obrigatórios deprimentes
que fica difícil viver

devo não devo
melhor não ou melhor sim
aonde se pode chegar assim(?)

Medir o que se diz
pensar o que se faz
evitar quase sempre o que apetece
está difícil de aguentar

a par da razão urge soltar
alargar praticar a intuição
isto serve aquilo não
escolher o que se quer

sentir faz bem
seguir o coração também

que luta se adivinha
no novo desafio
no confronto já realidade
entre a necessidade racional experimentada
e a latente premente necessidade

de um espaço
um alívio
uma urgência vital
de libertar a intuição
e a força dos sentidos

impulso abstracto de paixão

Em acto determinado
dei com teu ar gaiato
impulso abstracto de paixão

procurei teus braços
teu rosto colo
sem perceber qual a razão
inclinei-me todo ardendo em febre
para beber teu perfume de verão

quis tanto que ficasses
ou que me levasses no regaço
só que o sítio em segundos deixou de o ser
mudou-se
acabou-se

ficou de ti só o que pode ficar
o aroma o perfume
o afecto os matizes
o meigo olhar as mãos
o rasto dos teus passos
o mimo que é ver-te
e cruzar-me contigo

perfume cereja sabor a verão
lembrança
carros de bois enfeitados
desfilando pelas ruas
folhas de parra uvas
rostos tão bonitos

parece que se repete
Pinhel festa das vindimas
as senhoras da quermesse
o caldo verde o alvoroço
o baile bem animado
noite morna de Setembro

outra tu naquele Setembro
o mesmo encanto
tão bonita
que só de se ver
alegrava a minha terra e a mim

por isso hoje eu corri
sem entender a razão
impulso abstracto paixão
determinado para ti

controlei quem me controlava


Vou ordenar á mente
concentrado
em muito querer e sentimento
determinado
o próximo passo

encaminho-a
oriento-a
aponto-lhe o objectivo desejado

ela treme
tem gravado outro registo
para o que se pede

eu insisto
ela resiste

só algum tempo volvido
após receios enfrentados
resistências no programa estabelecido
finalmente obedece

mente ferramenta ao meu serviço
entrei definitivamente
no passo
que quis dar

mudei assim a mente céptica
controlei quem me controlava
finalmente

ela em registo antigo
cassete assimilada
nem acredita boquiaberta
habituada a comandar
que tem que aceitar
o que a evolução implica

e encontrar uma resposta diferente
para cada passo diferente
em consonância
com a mudança

neste mundo que não pára de avançar
não fazer isto não dar ordem à mente
de evoluir mudar
e deixá-la controlar-nos

é ficar para trás
em cassete registo de outro tempo

sábado, abril 28, 2007

retoque obrigatório na fachada

Ás vezes penso
que o que é dor de tanta gente
a quem não falta saúde nem dinheiro
aparentemente
é mesmo preocupação desenfreada
de adquirir sempre última moda
retoque obrigatório na fachada

depois logo ao sair da loja
encomendas todas sortido variado
ar vitorioso mas cansado
é-lhes revelado
que o último grito já era
que o vizinho o amigo têm já consigo
algo mais vistoso mais recente

desolação tristeza frustração
cabeça cheia de inveja inquietação
o sono vai-se o ego também
e o exemplo mostrado à família
ao bairro às redondezas
nunca é suficientemente inflado
por culpa da pressa
com que a abundância do comércio
se renova

ao menos a natureza renova-se sem pressas
e a abundância existe nela
em cada pormenor

a frugalidade o tempero os matizes
tanto requinte das montanhas às planícies
dos céus das estrelas brilhantes cintilantes
ao riacho pequenino
seco
inundado de silvas e de giestas
que passa na minha terra

só que o que é natural
é bem diferente desta vida artificial
em que todos tropeçamos

renova-se em abundância
à escala universal
e o universo não se cansa com isso
nem fica doente

filho de outubro

Fim de outubro
parece assim o fim de tudo
vão-se as férias vai-se o verão
também os restos que o outono guarda dele

vai-se a apanha da fartura
que faz dos campos
ventre mãe seio abundante
alegria da semente feita pão

parece ser prelúdio triste inverno
aridez de neve de chuva de granizo
agasalhos grossos gripes e frieiras
os primeiros frios
o cair da folha
mais um duro teste
a um tempo agreste

porém o ar naturalmente desolado
da vista da janela
em 1975 é contrariado

um rebento que tem nome de gente
quer que fim de outubro
seja primavera
continuação de abril revolução dos cravos

assim como quem quer
que não haja fim da esperança
quando termina o verão
as férias grandes as colheitas

aquele rebento
que tem nome de gente
teimou nascer
e afirmar ao mundo
que mesmo quando a folha cai
ou no pino do inverno
a vida nasce sempre
e o mundo não pára de crescer

segunda-feira, abril 23, 2007

não gosto de estar aqui

Nos teus olhos próximos vejo como estou
arrepiante
a amálgama velocidade pensamento sem controlo
as dúvidas os medos
tanto dentro de mim
no fundo dos teus olhos

Não consigo mentir
olhos de mim que tantas vezes não sabem que fazer
ordem de aguentar mais uma aula
um dever
esconder-me o mais que posso
só para o professor da matéria incómoda
mal sabida reprimida não me ver

não gosto de estar aqui
lugar de aprender aceitar-me regular-me
porquê(?)

a qualidade nem sempre está na velocidade
na idade na razão
no padrão aceite
mas aceitar isso com alma coração
e fazer de uma qualquer limitação
ali na tua frente
uma coisa natural que acontece
aceitar como normal não ser perfeito
em vez de o esconder sempre que posso

viver bem é fazê-lo com o que se tem
sem falsidade ilusão de agradar aos outros
em fachada desempenho
que dá cabo de nós

que se dane
estou nos teus olhos como estou
se fico se desisto ou se vou
só depende de mim
e do apreço que tenho por mim

Se esse apreço for grande e se não ficar aqui
há sempre tanto surpreender
tanto amanhecer com novidade
que só de pensar que há
apetece soltar em tanto engasgo
gargalhada forte e não ligar

vão-se

Vão-se

prisioneiros que me habitam
abro-vos o portão
definitivamente

solto as correntes
a que vos prendestes
feridas profundas
que transporto
tristezas que restam de outro tempo

Vão-se

o corpo prisão tornou-se livre
depois da revolução
os carrascos já se foram assustados
ficaram sem trabalho
guaritas sem guarnição

saiam medos e afrontas
pensamentos violados
mil registos de tortura
o vento que sopra é forte

vão-se

que agora sou eu
quem tem o leme do vento
que sopra forte e avança
derruba muros amarras
tanta dor de sepultura

vão-se

porque eu livre sou gigante
sou forte não tenho medo
nada nem ninguém me vai deter

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...