Quando o sonho vem
ou o pesadelo
as cores e matizes que vestem os figurantes
são por vezes tão intensas
cativantes
que mais parece não tratar-se de ilusão
mas de algo de outra dimensão
que perturba
e ultrapassa o nosso entendimento
as caras os sítios e o que dizem
são de tal maneira diferentes
de tudo e todos que conheço
a novidade tão viva
convincente
que o meu eu fica pasmado
fora de si
chega a parecer
que ele próprio me leva
para onde as histórias levam
e gosta de ficar nelas
e viver nelas durante algum tempo
que não sei quanto é
claro que depois o dia nasce
e tudo foi mentira
(ao que parece)
a luz do dia mostra isso mesmo
também o burburinho da rua
o passar compassado dos combóios
as falas dos vizinhos
os passos apressados
e o mesmo eu
que se recriou nas trevas
em aventuras de pasmar
e me levou a um qualquer não sei onde
não sei porquê nem para quê
diz-me agora
com o maior descaramento
que são horas de enfrentar a realidade
e ir trabalhar
segunda-feira, janeiro 15, 2007
domingo, janeiro 14, 2007
já nada é como dantes
A minha rua tem
gente que vai gente que vem
gente igual mas sempre diferente
cada casa é um pouco o espelho disso
o feitio dos cães o modo de vestir
a pressa ou a falta dela
o parque automóvel da família ou nem por isso
e um pouco como em toda a parte
há pais ausentes
há crianças
adolescentes
casais que discutem sempre
depois o natural movimento
dos que partem e dos que chegam
recentemente
homem novo na casa dos quarenta
chegou de outra morada outra mulher
aqui encontrou três
nova mulher as filhas da mulher
duas moçoilas saltitantes
naquela idade de encher o olho
e o resto
e à primeira vista o que parecia
tratar-se de uma situação delicada
com traumas dicas choradinhos
para as bocas dos vizinhos
qual coitadinho quarentão
qual quê
mestre novo vizinho
gere a coisa com jeitinho
ouvem-se risos gracinhas
e folgazão vai enchendo
a casa com mil carinhos
e se no bairro se vê
alguém feliz e gozado
mostrado
ele e suas “muchachinhas”
estão na primeira linha
quando professor ensinava
que divórcio era tragédia
coisa triste muito séria
de certeza não havia
casos de tanto sucesso
em boa verdade se diga
“já nada é como dantes”
gente que vai gente que vem
gente igual mas sempre diferente
cada casa é um pouco o espelho disso
o feitio dos cães o modo de vestir
a pressa ou a falta dela
o parque automóvel da família ou nem por isso
e um pouco como em toda a parte
há pais ausentes
há crianças
adolescentes
casais que discutem sempre
depois o natural movimento
dos que partem e dos que chegam
recentemente
homem novo na casa dos quarenta
chegou de outra morada outra mulher
aqui encontrou três
nova mulher as filhas da mulher
duas moçoilas saltitantes
naquela idade de encher o olho
e o resto
e à primeira vista o que parecia
tratar-se de uma situação delicada
com traumas dicas choradinhos
para as bocas dos vizinhos
qual coitadinho quarentão
qual quê
mestre novo vizinho
gere a coisa com jeitinho
ouvem-se risos gracinhas
e folgazão vai enchendo
a casa com mil carinhos
e se no bairro se vê
alguém feliz e gozado
mostrado
ele e suas “muchachinhas”
estão na primeira linha
quando professor ensinava
que divórcio era tragédia
coisa triste muito séria
de certeza não havia
casos de tanto sucesso
em boa verdade se diga
“já nada é como dantes”
vida breve em corpo breve
Apesar de o milagre se chamar Verão
e haver mar e sol e praia
e os corpos se sentirem bem
não deixo de reparar
ideia breve sobre aqueles corpos breves
na sucessão de vida que a praia é
mais evidente porque despida
vê-se ali de tudo
o que acaba de nascer
o jovem eterna ousadia
em mar que lhe rouba a vida
o que já ganha barriga
o que vai perdendo a corrida
curvando e encolhendo de cansaço
vida breve em corpo breve
se não aligeirasse o realismo
ampliando a visão ao interior da alma
mais pareceria
um desfile condenação por fases
onde o futuro
pouco
se mediria em um verão
uns quantos verões
em férias ilusões de condenados
quero crer que vejo apenas o lado visível do invisível
a vida não pode esgotar-se no par de tetas secas
da turista
ou no rapaz incauto
ou no homem barriga farta que se arrasta
nem no resto que vejo
quero crer que para lá disto tem que haver mais
porque se não acreditasse nisso
ia para casa triste
não haveria deus e a eternidade
e eu interrogar-me-ia
sobre o que se anda cá a fazer
e haver mar e sol e praia
e os corpos se sentirem bem
não deixo de reparar
ideia breve sobre aqueles corpos breves
na sucessão de vida que a praia é
mais evidente porque despida
vê-se ali de tudo
o que acaba de nascer
o jovem eterna ousadia
em mar que lhe rouba a vida
o que já ganha barriga
o que vai perdendo a corrida
curvando e encolhendo de cansaço
vida breve em corpo breve
se não aligeirasse o realismo
ampliando a visão ao interior da alma
mais pareceria
um desfile condenação por fases
onde o futuro
pouco
se mediria em um verão
uns quantos verões
em férias ilusões de condenados
quero crer que vejo apenas o lado visível do invisível
a vida não pode esgotar-se no par de tetas secas
da turista
ou no rapaz incauto
ou no homem barriga farta que se arrasta
nem no resto que vejo
quero crer que para lá disto tem que haver mais
porque se não acreditasse nisso
ia para casa triste
não haveria deus e a eternidade
e eu interrogar-me-ia
sobre o que se anda cá a fazer
quarta-feira, janeiro 10, 2007
percebi que era pai que era filha
O sol de Dezembro estava fraco
e como é baixo no sítio amplo
onde me sentava
num banco
havia sombras que os prédios altos projectavam
um homem sentava-se à sombra em outro banco
uma menina esguia e suave patinava
indicou ao homem
que se sentava à sombra
um banco ao sol
mesmo ali na minha frente
vi a menina os olhos dela
vi o homem os olhos dele
a atenção que ela lhe pedia
deslizando nos patins também parando
debruçando-se no jornal dele
tentava ir nos olhos dele
procurando algum interesse comum
então pousava a mão na dele muito ternamente
tentando contactar
percebi que era pai que era filha
e que pai e mãe viviam separados
que a mãe estivera na Grécia em Roma
coisas que a filha lhe contava
o pai só conseguia ouvir poucas palavras
o seu olhar murchava logo
e escondia-o no jornal
para não mais ouvir
percebi também que estavam ali para almoçar
e que ela perdera o apetite
nuvens demais para um Domingo soalheiro de Dezembro
num último olhar já de abalada
captei nele o vazio do filme que vivia
nos olhinhos dela
uma suavidade triste que confrangia
como ela olhava para mim mais do que ele
e acho que entendia que eu a entendia
deitei nos olhos dela
da melhor maneira que pude
um sorriso esperança
fechando e abrindo os olhos lentamente
e quis que lesse neles um aplauso uma coragem
que não desistisse
porque era evidente o seu amor tão lindo
que não tinha pai coração fonte onde beber
e como é baixo no sítio amplo
onde me sentava
num banco
havia sombras que os prédios altos projectavam
um homem sentava-se à sombra em outro banco
uma menina esguia e suave patinava
indicou ao homem
que se sentava à sombra
um banco ao sol
mesmo ali na minha frente
vi a menina os olhos dela
vi o homem os olhos dele
a atenção que ela lhe pedia
deslizando nos patins também parando
debruçando-se no jornal dele
tentava ir nos olhos dele
procurando algum interesse comum
então pousava a mão na dele muito ternamente
tentando contactar
percebi que era pai que era filha
e que pai e mãe viviam separados
que a mãe estivera na Grécia em Roma
coisas que a filha lhe contava
o pai só conseguia ouvir poucas palavras
o seu olhar murchava logo
e escondia-o no jornal
para não mais ouvir
percebi também que estavam ali para almoçar
e que ela perdera o apetite
nuvens demais para um Domingo soalheiro de Dezembro
num último olhar já de abalada
captei nele o vazio do filme que vivia
nos olhinhos dela
uma suavidade triste que confrangia
como ela olhava para mim mais do que ele
e acho que entendia que eu a entendia
deitei nos olhos dela
da melhor maneira que pude
um sorriso esperança
fechando e abrindo os olhos lentamente
e quis que lesse neles um aplauso uma coragem
que não desistisse
porque era evidente o seu amor tão lindo
que não tinha pai coração fonte onde beber
Portugal século XXI
Parque automóvel terceiro da Europa
esforço pouco
o pessoal safa-se na vida
ali ganha-se
ali gasta-se
ali pede-se
ali compra-se
os calotes são já quotidiano
mas a vida vai de vento em popa
longe das andanças difíceis esforçadas
de antepassados ilustres que coitados
a dificuldade que tinham em chegar ao sonho
ao Brasil à Índia
a Cuba à República Dominicana
eram meses anos transpirados
fome doenças
e rotos navegando em ondas alterosas
lá iam
a morte os levando quase sempre antes da vida
agora século XXI
no mesmo sítio
tudo ao passo de um click
em casa
no jeep
numa agência qualquer
avião bilhete prestação
e o lugar longínquo
fica sem cansaço ali à mão
não sei porque vou
não sei onde estou
hesito fartura em tanta opção
mas vou
ocidente magnífico
a chave encontrada
neste delírio
consumo fácil colorido
mas por outro lado
drogas drageias
chás amuletos santos e rezas
para ajudar
que façam dormir
ou excitar
para afinal
manter de pé tanta fartura de plástico
esforço pouco
o pessoal safa-se na vida
ali ganha-se
ali gasta-se
ali pede-se
ali compra-se
os calotes são já quotidiano
mas a vida vai de vento em popa
longe das andanças difíceis esforçadas
de antepassados ilustres que coitados
a dificuldade que tinham em chegar ao sonho
ao Brasil à Índia
a Cuba à República Dominicana
eram meses anos transpirados
fome doenças
e rotos navegando em ondas alterosas
lá iam
a morte os levando quase sempre antes da vida
agora século XXI
no mesmo sítio
tudo ao passo de um click
em casa
no jeep
numa agência qualquer
avião bilhete prestação
e o lugar longínquo
fica sem cansaço ali à mão
não sei porque vou
não sei onde estou
hesito fartura em tanta opção
mas vou
ocidente magnífico
a chave encontrada
neste delírio
consumo fácil colorido
mas por outro lado
drogas drageias
chás amuletos santos e rezas
para ajudar
que façam dormir
ou excitar
para afinal
manter de pé tanta fartura de plástico
desintegrei-me integrado
Era cedo ainda
o meu corpo estava
nem acordado nem dormido
devia ser quase dia ou dia mesmo
porque um galo já cantava
eu sonhava pensando
ou pensava sonhando
e acontecia
primeira vez
entrar no teu lugar contigo lá
imaginar imaginar
assim como ir voar
ver muito e nada ver
sentir-te toda e tanto e não sentir
não ocupar o teu espaço e ocupar
estive em ti
fui o teu riso
fui o teu rosto
fui o teu corpo
confundido
misturado
o teu lado e o meu lado ao mesmo tempo
eram sítio unificado penetrante
penetrado
os meus braços os teus braços
o teu ventre o meu ventre
puro iluminado e branco
desintegrei-me integrado
numa mesma dimensão energética
contigo
senti-me a mim sentindo-te a ti
senti-te a ti sentindo-me a mim
fiquei dessa maneira o tempo suficiente
para perceber o quanto existes sempre
cá ou lá
onde estiveres
e suavemente
ao contrário do que normalmente acontece
quando a emoção é forte e a realidade é sonho
ainda meio regressivo
incrédulo e confuso mesmo
fui muito lentamente
em pés de dia sete de Janeiro
amparado ao chão tapete ruído elevador
afastar o cortinado engelhado do meu quarto
e na humidade noite fria vidro da janela
escrevi com a ponta do dedo indicador
o teu nome o meu nome
um coração
e uma seta atravessando o coração
infantilmente
tal e qual como se vê
desenhado em qualquer sítio vulgar
por onde a paixão passa
o meu corpo estava
nem acordado nem dormido
devia ser quase dia ou dia mesmo
porque um galo já cantava
eu sonhava pensando
ou pensava sonhando
e acontecia
primeira vez
entrar no teu lugar contigo lá
imaginar imaginar
assim como ir voar
ver muito e nada ver
sentir-te toda e tanto e não sentir
não ocupar o teu espaço e ocupar
estive em ti
fui o teu riso
fui o teu rosto
fui o teu corpo
confundido
misturado
o teu lado e o meu lado ao mesmo tempo
eram sítio unificado penetrante
penetrado
os meus braços os teus braços
o teu ventre o meu ventre
puro iluminado e branco
desintegrei-me integrado
numa mesma dimensão energética
contigo
senti-me a mim sentindo-te a ti
senti-te a ti sentindo-me a mim
fiquei dessa maneira o tempo suficiente
para perceber o quanto existes sempre
cá ou lá
onde estiveres
e suavemente
ao contrário do que normalmente acontece
quando a emoção é forte e a realidade é sonho
ainda meio regressivo
incrédulo e confuso mesmo
fui muito lentamente
em pés de dia sete de Janeiro
amparado ao chão tapete ruído elevador
afastar o cortinado engelhado do meu quarto
e na humidade noite fria vidro da janela
escrevi com a ponta do dedo indicador
o teu nome o meu nome
um coração
e uma seta atravessando o coração
infantilmente
tal e qual como se vê
desenhado em qualquer sítio vulgar
por onde a paixão passa
dr fausto lá caminha
De saquinho pr’á piscina
madrugada dr fausto lá caminha
deixou pais no sítio berço
jumentos porcos e arados
deixou que a cidade o absorvesse
que lhe tirasse o sujo
o cheiro
a poeira
a calmaria do monte
e foi-o vestindo de maneira
que o molde inicial desaparecesse
esforçado funcionário
marido pai e senhor
não manteve a pedalada
numa vida sem amor
verniz muito em tanto ranho
carreira profissional desempenho
e o rótulo triste vergado
quebrou
muito novo reformado
junta médica cansaço
deambula aconselhado
desaconselhado também
resta do esforço um farrapo
que vai dando para uns fatos
que o resto
é vê-lo desaconchegado
sem amor e mal amado
uma aldeia bem vestida
bem calçada
bem cuidada e perfumada
em apartamento cidade
aprisionada
e de saquinho madrugada
pr’à piscina
dr fausto lá caminha
madrugada dr fausto lá caminha
deixou pais no sítio berço
jumentos porcos e arados
deixou que a cidade o absorvesse
que lhe tirasse o sujo
o cheiro
a poeira
a calmaria do monte
e foi-o vestindo de maneira
que o molde inicial desaparecesse
esforçado funcionário
marido pai e senhor
não manteve a pedalada
numa vida sem amor
verniz muito em tanto ranho
carreira profissional desempenho
e o rótulo triste vergado
quebrou
muito novo reformado
junta médica cansaço
deambula aconselhado
desaconselhado também
resta do esforço um farrapo
que vai dando para uns fatos
que o resto
é vê-lo desaconchegado
sem amor e mal amado
uma aldeia bem vestida
bem calçada
bem cuidada e perfumada
em apartamento cidade
aprisionada
e de saquinho madrugada
pr’à piscina
dr fausto lá caminha
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