sexta-feira, dezembro 12, 2008

eminência do fim


O que não é cuidado
tratado
fica murcho
abandonado


de dia ainda vá
coitado
persiste insiste
em manter-se de pé
firme forte erecto
num destino abjecto

há luz ruído
mesmo distante e perdido
em ínfimos decibéis
são sopro leve e breve
a animar o coração

mas de noite…
arrepio frio de geada
clausura breu
ilusão perdida vertida nada?!

a seiva a secar
segundo a segundo
o corpo a mirrar
na iminência do fim

o eu a fugir
o tu que fugiu
o nós arredado dali

não sei de onde vim
para aqui
não sei para onde vou
daqui

sei que vim só
que vou só
e que o que se passa aqui
é intervalo
entre uma ignorância
e outra ignorância!

domingo, dezembro 07, 2008

Europa Portugal como tu és


Caía uma chuva miudinha
que molhava
as folhas no chão tombadas
coloriam as poças de água
no carreiro estreito que pisava

enquanto caminhava
e me molhava
olhando o dia carregado
escuro de invernia
pensava
no país que somos distraído

já um sapato na biqueira
se encharcava
e as calças que levava
repassavam a água que caía

neste desconforto que sentia
o “homem eu” mal vestido
para o tempo que fazia
sorria…

tantos anos projectados
para zonas tropicais
os longes das quenturas africanas
ou dos Brasis os tórridos areais
que nos esquecemos
da fria Europa em que vivemos

hoje eu aqui deles descendente
filho de emigrantes
navegantes sonhadores
(outras paragens
outros calores)
senti…
que tenho que acordar de vez
mudar o assento

e sem deixar o sonho
herdado de antes

ir a um centro comercial talvez
comprar roupas agasalhos
para viver-te
Europa Portugal como tu és!

sexta-feira, dezembro 05, 2008

virtualidade longe e perto


Longe e tão perto
quando uma palavra uma canção
nos toca
vinda do hemisfério sul
para o hemisfério norte
ou vice versa
e nos põe
o coração a bater forte

sente-se a atenção
que alguém emite
e como que em atracção
o outro lado sente
não resiste
em permutar a comunhão
que existe

sinal após sinal
mostram-se
transmite-se
valida-se afinal
a atenção
gerando ondas e ondas
de espera resposta
em ligação

uma interferência nos canais
um imprevisto
um rude golpe
uma desistência em não
pode acontecer…

interrompendo assim a conexão!

Portugal e o impossível


O impossível acordou cansado
farto desgastado
de um pesadelo
que afinal era verdade
viu de repente o mundo do avesso
fugir-lhe a clientela

tal era largo e fundo
o fosso entre o que via hoje
e o que vira dantes...

ficou mudo
afónico doente
embrulhado em lençol de leito
com o que via !

um povo triste que o servia
histórico desânimo
preguiça
um fado escurecido
desgraça morte dor
alimentado para o seu fulgor...

passou a ter
olhos na cara
ânimo
a querer ser correr
acreditar
fazer como fazem os melhores

e o impossível petulante
de cartola e de pantufas
em palácio encantado de fortuna
feita com a não fortuna
dos outros…

ficou errante e só
no seu luxo ró có có…

cada vez mais longe
da verdade
do país Portugal
realidade

abram-se os olhos
sintam-se os pés
mude-se de vez
o disco do desgosto
que fez do impossível
o senhor que é

reponha-se Portugal de pé
entre os maiores!

doce doce doce


Doce doce doce
um desejo contido
custoso
na hora de agir

doce doce doce
uma palavra encolhida
engolida
na hora do grito

doce doce doce
um paladar chocolate
um engate
que fica por ser

doce doce doce
que merda de vida
não sei que dizer
na hora de querer

e vou de saída
de volta pr’a rua
ao menos a chuva
intensa que cai
na pressa incontida
faz-me correr
e esquecer o doce

quinta-feira, dezembro 04, 2008

sobretudos roupa nova

Dezembro sobretudos roupa nova
uma origem comum
o espaço geográfico que os pariu

hoje como destino um outro espaço
almoço encontro desencontro
na cidade

ilusão repetida anunciada
de mostrar uma aparência sustentada
perdida já em trechos
sonetos versos dramas enseadas
passado translúcido
de estradas esgotadas

há gestos neles sorrisos tosse
encravam as palavras
na fita métrica da distância
há o menino lúdico de outrora
escorrido autêntico
feito general agora
ou outra profissão sonante
sério calculista pesado circunspecto

contam-se espingardas no olhar
galões currículos posição social

mas é tudo gente velha
com medo da morte
com medo de perder o leme e o norte
ante o tempo dos outros
que é mais novo e deles já foge

apraz naquele encontro de carcaças
mostrar alguma coisa
que ainda espante
esconder falhas taras medos
que possam tirar brilho
ao eco de inteligência gabarito
propalado

mostram-se os meninos em formato velho
que os põe desajeitados em reparos
olhares antigos em meninos velhos

que é do Chico safadão
o Paulinho das perdizes
o Pedro do garrafão
o marrão do Agostinho?

deles nem uma pálida projecção
no formato em que estão!

se eu fosse ali
não falava não fingia não ficava
apenas entrava
olhava-os bem nos olhos
nem um pensamento nem uma palavra
e saía

com lágrimas nos olhos ou sem elas
ia á praia mais próxima e fazia
como o Zorba fez
despia-me
e lentamente primeiro
depois com toda a energia
em sintonia com ventos e marés
o frio a chuva
o que quer que fosse

dançaria dançaria dançaria!

o fio de água que sou


Aproveita o fio de água que sou
curto até à foz
volume ruído visibilidade exíguos
mas em redor
em cima ao longe ao perto…

que mundo imenso
a acompanhar este fio de água
que mal se enxerga!

as flores os prados as giestas
o canto dos pássaros
o nascer do sol
enorme exuberante
que parece nascer só para o ver

o silêncio em desenho rude
de tanta forma
em pedra
em arbusto
em árvore
ornamentando o azul celeste
que se perde ao fundo
na serra agreste

foi de lá que vim
vou para perto
mas enquanto vou
este sítio em que estou
é o lugar mais belo do mundo

aproveita se quiseres
o belo mundo
deste ribeiro pequenino
faz-lhe companhia
e aquece-lhe o caminho até à foz

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...