segunda-feira, abril 02, 2007

aqui como na vida

Estou entre o sentir-me pouco
e o sentir que é pouco
a rotina dos passos
a própria escolha dos espaços
o adivinhar quase o que se vai passar

a dança anima o corpo aquece
até transpira
o sorriso aparece
mas ficar com a escolha que resta
entristece

e é sempre a mesma sina
disfarço que chega
disfarço que gosto
e no desgosto
parto na dúvida em voltar

sei que a vida é selectiva
sei que uns são mais fortes nesta guerra
ou disfarçam melhor
mas se houvesse tarefas
mais novidade obrigatória
não se cairia na rotina
na escolha conhecida mais segura

introduzam-se tarefas
objectivos atrevidos
nada que seja complicado
onde a interacção a animação
evitem a multiplicação
de um certo sorriso de plástico

e que dê a todos
para além de tanto que já dá
uma partilha como a da criança
quando brinca

a qualidade então aumentaria
porque a criança sabe entreter-se
para além do disfarce

metáfora dos conquistadores

Se o mar for fundo
e se entender o risco grande
para a tradição de cada um
não vai dar para enfrentar
tão grande desafio

há sempre o Adamastor
as tormentas do cabo Bojador

só depois de ventos enfrentados
muitos sóis volvidos
amainadas as águas vencidos os medos
poderá arribar-se a uma ilha dos amores

uns viram velhos do Restelo
a maldizer a criticar
recusam o mundo a avançar

outros têm só medo do mar
preferem morrer de tédio
do que ir
acreditar

os que embarcam
são os que querem mudar
que sabem de um mundo novo
do lado de lá do mar

mas nem todos os que embarcam
são iguais no caminhar
um fuma muito a bombordo
outro bebe no porão
outro prefere rezar
outro afoga a solidão
olhando o infinito mar

vale o líder timoneiro
para guiar os marinheiros
consoante as horas que são
a nostalgia a euforia
os hábitos a fome e o cansaço
aceitar até a desistência
quando o momento fica sério

a uns chega um porto perto
a outros não
querem mais que ficar perto
esses querem chegar
aos quatro cantos do mundo
são grandes conquistadores
e há que os saber guiar

mesmo depois de chegar
há que bramir a espada
lutar
cimentar novas conquistas

que só após muita luta
noites claras a fio
muita ferida por sarar
chega enfim a recompensa
o merecido festejar

comem bebem cantam dançam
os bravos conquistadores
ondas do mar altaneiras
terra nova tão exótica
lábios ninfas risos de anjo

corpos quentes seios nus
peitos arfando gemendo
não da peleja mas de êxtase

há tambores índios amores
uma alegria tribal
na raiz um mundo novo

benditos conquistadores
que dizem não ao pecado
à moral ao proibido
vida em dança abundância
emoção para lá do medo

homens que vêem mais longe
e por isso vão mais longe

e por assim verem tão longe
e irem assim tão longe
mudam o mundo
fazem história

enfrentar os nossos medos

O aprofundamento na vivência é desejável
enfrentar a dificuldade interior
os nossos medos
que transbordam para fora
e nos fazem sofrer

sentimo-nos sempre pouco
indignos pecadores desajeitados
que não merecemos o que temos

há pois que libertar ousar
aprender mais sobre quem somos
onde estamos
o que queremos
de que gostamos

só que aprender custa
obriga-nos a mostrar
que uma vida não basta
para sabermos pouco

então parecemos trouxas burros
que não sabemos o que queremos
(e quantas vezes não sabemos)
pois importa esconder dissimular
o pouco que sabemos

fica difícil pedir trocar
descobrir a maravilha da diferença
voltar a ser essa criança
que tudo queria ver saber experimentar
e que perdemos ao crescer

ah se a criança quando o era pudesse aprofundar
se a deixassem correr saltar brincar
exteriorizar as malandrices todas
na intuição nas lágrimas nos gritos nos desejos
se não a matássemos
com regras julgamentos proibições
e não a transformássemos em adulto entristecer
sem o ritmo certo de voar
tocar gostar saborear

se não a transformássemos
no adulto sórdido chato oblíquo que somos
bem distante da raiz e da criança interior

Família espontânea


Só por medo de estragar
a esta família espontânea
não se pede para ousar
mais do que é habitual
a dançar a descansar a tocar a cochichar
de mão dada a rodar

porque apetece inventar
brincadeiras de brincar
outras sérias de agarrar
tudo para aprofundar
este encontro em que ficamos

e porquê não escrever
declarações de intenção
o que ando cá a fazer
o que quero receber
e dizê-lo por exemplo
numa cartinha de amor

só não se fazem mais coisas
neste nosso partilhar
porque gostamos tanto
que tememos estragar

se lhe dissesse o que queria
o que iria pensar
nunca mais a veria
porque nenhum ousaria
voltar aqui outra vez

melhor é não se inovar
só que sabe sempre a pouco
de tão bom que é dançar

que apetece continuar
ou com todos
ou com alguém em particular

poderia virar clube
uma família talvez
com uma sede uma casa
para onde a gente pudesse
correr para se abraçar
quer quando a vida doesse
quer quando apetecesse
dançar

mas são tantos os empenos
vidas mais vidas feitios
que juntar sessenta queridos
num sítio em comunhão
seria grande o desafio
e maior a confusão

para já com o que temos
para aumentar a descontracção
pensemos
nuns bilhetes intenção
com brincadeirinhas ou não

numas cartinhas de amor
nuns recados bem quentinhos
e aprofundemos os laços
salvemos o coração

sábado, março 24, 2007

apenas sinto existo

Estou no presente
abraço-o e gosto
não o posso agarrar
se bem que às vezes apeteça
vivo-o e deixo ir

compreendo o ritmo
a cadência
e sem ficar magoado triste deprimido
apenas sinto existo
aguardo
com paciência

o presente está sempre renovado
em cada momento diferente
e com um pouco de bom senso
de senso comum
monto-me na evolução
e vou no tempo

assim
estou sempre actual e vivo

repare-se no ronco do motor que se aproxima
aumenta a presença no encurtar da distância
há um ponto em que culmina
depois esgota-se
em afastamento na distância

e a questão é sempre a mesma
fico na distância antes ou depois
no sonho que foi
no que há-de vir…

ou delicio-me simplesmente
com o que de importante existe
no instante
breve
mas que está sempre a passar(?)

tradição sem sonho

Qualquer coisa em ti fez despertar
cantos de mim tão escondidos
reprimidos
que nunca sequer os vi
ou percebi
não sei onde andei
onde me escondi

agora percebo e vejo
ao ver-te aí
bem na minha frente
que estava morto e não vivi

enredado no escuro
preto e branco
capote cinzento guerra
ardendo queimado na fogueira
monge clausura sem afecto
em hábito condenado
pardo castanho triste figura

tu janela livre
livro por abrir
vida amor abraço liberdade
mundo de oportunidades

nesta fronteira
afirmo
que contigo darei os meus primeiros passos

não sei o que trago vestido
se estou descalço se calçado
se sou rico se mendigo
se tive ideais
ou se só me equivoquei

só sei
que quero nascer contigo
sair daqui
e amar pela primeira vez

domingo, março 18, 2007

vulcão por explodir

Eu amo-me nos teus olhos cintilantes
fico
na coragem que transmites

num gesto automático aceno não
gesto que não quer dizer que não
apenas um hábito céptico
assim como quem olha para ti
acha demais
e não acredita que o sonho às vezes acontece

uma flor porque é flor
pode cheirar-se
apreciar-se tocar-se despir-se
pegar nela e pô-la onde se quer

mas tu mulher
beleza flor atracção maior
como fazer-te o que se faz a uma flor

apetecia mandar-te estes versos perguntar-te
aguardar que me ensinasses a resposta
como me ensinaste a dizer sim
um sim ridículo eu sei
mas em onda rubor de confiança
ele fez parecer tudo possível
quando o disseste olhando linda para mim

passei amor por ti passei afecto
pus a minha alma toda no teu rosto
e o teu corpo sentia
porque eu via que sentia
tremia oscilava encolhia

eu só queria ser bom sentir o tacto
extravasar um pouco do vulcão adormecido
chama tanta ternura por explodir

e consegui devagarinho
em espaço tu tão receptor de chama e ansiedade
que um buraquinho abrisse fendesse
soltasse lava incandescente
quando os meus dedos se apuravam em ti
de cima abaixo

que bom partilhar um poucochinho
o fogo fechado que atrofia a gente
e dá cabo do coração

essa chama desejo história pessoal
que ficará gravada em mim
com o teu nome
a que chamarei vulcão
(por explodir)

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...