sábado, dezembro 31, 2005

pensar D. Sebastião

o mito o que tem
é que alimenta a esperança
nos inspira
sabe bem
e é bonito

quando tira o véu da nebelina
e abre o pedaço de céu rasgado onde habita
de onde sai de vez em quando
em nós tudo se agita
tudo fica imaculado e lindo
desejado mesmo

e se o mito é mito porque não morreu
é por isso
que não me arrisco a "matar" ninguém
se eu o não faço
porque havia de fazê-lo Deus(?)

a vida é vida
há-de sê-lo sempre
mesmo para lá da morte aparente
o mito é o maior exemplo disso
vive o mito
vive el rei D. Sebastião

Senhor da boa sorte

fui à capelinha do Senhor da boa sorte
um ermo só e abandonado
com pedras de sobra e distância pobre
onde só erva daninha cresce
onde o silêncio corta
e o silvo do vento assobia

ali o que é mais forte
é a esperança o perdão a fé
e também a confiança
que transmite a imagem silente e triste
do Jesus pregado na cruz
aceitando a morte

e naquele ermo deserto
naquele corpinho frágil de Jesus
tanta gente a pedir o abraço
a encontrar conforto em seu cansaço
apenas olhando
falando

não há razão nisto
eu sei que não
mas que é verdade que conforta
e que se sente aquele abraço
uma força forte
que o diga o coração

menina do mar

rodeada assim de mar
grande
com seus segredos
que vêm do fundo e do longe
altos rochedos
onde encostam ondas rebentando
rodeadas de barcos e gaivotas
de areais esquecidos no tempo
entre um caminho de mar e um caminho de Lisboa
ficas tu menina de água

olhos que se abrem pela manhã
esquecidos
preguiçosos
ainda adormecidos
espreitando por entre a névoa
o sol que há-de vir
e há-de mostrar (quem sabe)
uma vida a sorrir

e o sol aparece
alegram-se as dunas
por te ver passar
alegram-se as ondas para te molhar
o velho castelo sorri
para te saudar
a Berlenga é barco para te levar

que mais queres tu
menina do mar(?)

no fim da estrada

seguia pela estrada a grande velocidade
era desconforme a música que ouvia
os olhos fixavam hirtos o asfalto
era uma tempestade o que eu sentia
o rumo não era um rumo certo
a noite era rainha de mim
e transmitia aquele sabor amargo a solidão
no caminho incerto que seguia

é daquelas alturas em que apetece gritar
(mas não se grita)
soltar gemidos no vento
chorar
e a pressa que se sente
a guiar a guiar
esconde um desejo inconsciente
de nunca querer chegar

mas pela frente encontramos sempre
o mar
um muro
o fim da estrada
ou gente

ainda bem que eras tu quem estava
quando a corrida sem fim
parou
e contigo pude conversar enfim
coisas banais mas coisas boas
trocar tempo por tempo
acalmar um pouco as minhas máguas

e dares-me o que deste
foi para mim
o melhor presente
na tempestade agreste

verdes anos

adolescência tão bonita
(e tão inquieta)
tão cheia de surpresa
e de alquimia
parece que o tempo é tanto tempo
a força tanta
que a noite e dia
são linha recta na distância

bebe-se o mosto
vai-se ao bailarico
e logo pulando e dançando
se aprende o sabor da dança

também se esmorece
mas logo uma asneira
um grito
saem à maneira

assim se cresce
a namorada o amigo
a aventura o sonho
as férias a escola
e nada significa nada

o mundo está todo ali
na escola no bairro
nos amigos nos livros
na ilusão
e também num beijo

a vida é um imenso verão

menino de África


olhar inocente vindo ao mundo sem pedir
porquê?
criança de África com olhos para ver
o que não tem nada para ver
nem é bonito

quem te fez assim
menino negro
rodeado de espingardas de fome de medo
de doença
quem pode ser tão mau
e mata assim tua inocência?

menino é menino em toda a parte
tem que brincar e tem que rir
tem que ter pai tem que ter mãe
amigos
um jardim
e não ser assim como tu és
menino velho sem forças
nascido morto
ou morrendo vivo

mas passa o tempo e ninguém semeia
para ti
perdido na noite
esquecido de Londres Paris ou Nova Iorque
uma seara de paz uma fábrica de brinquedos
pão
coisas simples e bonitas como tu
menino de África
para te ver feliz
e enfim vencer a solidão
a ausência permanente
esse abandono

que crime que é só de ver-te assim
esses olhos grandes
de tristeza tão triste
que impotência total
que ingratidão tamanha

terça-feira, dezembro 13, 2005

cacto algarvio

trouxe um cacto comigo do teu jardim sul florido
num daqueles dias em que um pouco de dar sabe tão bem
por isso corri estrada fora
coração quente
trazia-te um pouco a ti
(queria eu crer que trazia)
e o mundo era pequeno para tanto sentimento
a árvore grande em tamanho pequenino
(o cacto)
parecia que o sabia
aninhava-se ela também feliz no assento
olhava para mim
(sorria)
finda a viagem teve honras de pousar em minha casa
em lugar onde de todo o lugar se via
e deu-se bem
porque eu via nela em cada folha em cada braço
o tempero a harmonia
o teu abraço
e que bem que eu lhe queria
um dia destes
murchou
morreu
o cacto
talvez por saber que tu casaste
(pensei eu)
e me ver triste
sentiu cansaço
e foi de amores que se perdeu

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...