sexta-feira, abril 17, 2009

realidade a menos aparência a mais


Meras projecções
completamente desligadas
do real
que assimilamos
como se fossem correspondências exactas
das construções intelectuais
que temos

armazenamos muita informação
desde pequenos
depois olhamos
e o que vemos
associamos a qualquer coisa
que supostamente vem
de ensinamentos observações
sonhos contos
tradições
filtros a mais
suposições
em que afundamos

raramente percepcionamos
o que verdadeiramente é

daí tantas distorções
medos confusões
em vez de vermos
preto e branco
e lhe chamarmos só
preto e branco…

não

vemos qualquer outra coisa
que não está lá
ampliamos
diminuímos confundimos associamos
complicamos

são imagens a mais que armazenamos
suposições feitas de equívocos
presunções

ou seja

realidade a menos aparência a mais!

segunda-feira, abril 13, 2009

de que serve ser dor


De que serve ser dor
ser pessimismo
matraquear teclas de bolor
de um piano velho
que desafinou já
ou está a desafinar?

se ficar na dor aumenta a dor
se ficar triste
no mínimo deixa de comer
por falta de apetite
e se assim continuar
talvez acabe por morrer

o que faz sentido é tratar a dor
remediá-la
dar-lhe conforto
pôr-lhe amor
nova recarga
renová-la transformá-la

sair do incómodo que a dor causa
e viver

receba a onda do seu tempo
sinta-a afine-se com ela
alegre-se na alegria do momento
cante dance sinta grite
desafie-se inebrie-se
deixe a vida fazer o resto

cuidá-la acarinhá-la alimentá-la

num acto decidido e de mudança
troque as notas do piano velho
irritante gasto bafiento desafinado
pelo piano novo radiante
seu
com a música perfeita que merece

sábado, abril 11, 2009

a vida que tu queres


Pedes-me que te diga
que te fale
que te indique o melhor caminho
e vejo que o fazes
de uma maneira aflita crispada
temerosa

vendo-te assim
e porque sou teu amigo
ouço-te penso medito
e transmito-te o que sei
e o que sinto

o teu ar ansioso triste
abranda por instantes
concentras-te nas palavras que profiro

eu acredito
que no maior medo
na maior fogueira
é possível lançar um pouco de água
de terra de poeira
desincentivar dessa maneira
a chama que o incendeia

porém o fogo é grande extenso
as frentes reacendem
por todo o lado
e as palavras que te disse
quando as lancei quando as ouviste
provocaram calma adormecendo o monstro

mas foi sol de pouca dura
foi enganosa a serenidade

depressa percebi
que pedes para te dizer
para te ensinar
para te apontar
o melhor caminho para ti
a melhor resposta para os medos
que te assustam

mas afinal o que tu queres
é ser mimada consolada
quando a dor aperta
para logo após
mandares tudo à fava
e continuares…

queixosa vítima entediada
nessa vida que te mói
que te fere
que te mata
mas que afinal de contas é
a vida que tu queres!

vila simples bucólica


Vila simples bucólica
isolada fria histórica
com actividades só campestres
rudes fechadas de horizonte

eu pequenino a crescer nela

a rua de regresso a casa
única
era empedrada estreita
triste na cor no odor
pobre analfabeta
baba ranho e aguardente
naquele jeito xaile e lenço
preto e branco

e o medo que eu sentia ao passar nela!

os cães regressados dos campos
habituados a lobos e a guardar gados
ladravam-me ao passar

eram tempos meus de muito perigo
e pouca escolha

terra como eu só e abandonada

as pedras os barrocais
a torre em sinistro cemitério
as muralhas poligonais
silenciosas
a igreja velha
com cheiro a santos carunchosos

era pouco para uma criança curiosa
transpirando pelos poros
ainda finos
fome de horizonte
de amor de vida de oportunidade

cheguei a querer só brincar naquela idade
para alienar-me
por achar tão pouco a realidade!

daí o valor que hoje dou
ás avenidas largas
ao traçado de auto-estradas
ás vias de entrada e de saída
multiplicadas
aos aeroportos aos aviões
aos projectos ambiciosos
novas soluções

á gente viva que mexe que se agita
em muitas direcções
que é mais culta mais bonita

á cor das flores do século XXI!

quarta-feira, abril 08, 2009

fartura causa perturbação


Fartura causa perturbação
na escolha na solução
há muita coisa nova
vinda a toda a velocidade
de todos os lados
expectativas para os egos
que quase já não dormem
por baralhados

o presente do produto
mais recente
a ficar logo passado

até parece olhando assim
que fartura é desgraça
praga
um tremendo risco
desta época modernaça

acompanhar isto
a esta alta velocidade
fica impossível
e a desistência para muitos
é imperativa necessidade

nunca foi humano tudo ter
tudo saber tudo acompanhar
mas em vez de nos perturbar
tanta abundância…

gostemos dela

sempre houve muitos caminhos
muitas encruzilhadas
e se hoje há mais…

pergunto

será mau ter mais caminhos
direcções
opções aos milhares aos milhões
para os sentidos?

segunda-feira, abril 06, 2009

devia ser mais fácil


Devia ser mais fácil natural
o abastecimento de energia
pelo toque pela química
por intuitiva empatia

assim tudo mais dado
aberto simplificado

mas não

há o empregado o patrão
o soldado o capitão
o mestre o aprendiz
o rico o pobre
o bem vestido o maltrapilho
o que faz leis
o que as não cumpre

e com tantos escalões
diferenças de galões
aumentam as distâncias
e o calor que se tem
fica mais frio
nos impossíveis das urgências

como que se perde
pelo menos por enquanto
o melhor das religiões
o amor o afecto o toque
que quando é generoso e apetece
esse é o sítio bom
o éden
onde a vida se abastece

queria que tudo funcionasse
mais como o tempo em movimento

mas não

triunfam hierarquias de outra idade
que servem de travão
às necessidades novas
ao fluxo
ao néctar
ao progresso
à novidade

portugal sul em azul claro


É manhã
Portugal sul Abril
em azul claro

apetece tocar beijar
as bravias flores multicores
quase sem altura
as figueiras pequeninas
colando as folhas ao chão
por necessidade de alimentação
e cujo tamanho
em pouco ultrapassa a minha cintura

apetece seguir cada carreiro
na falésia grande
apenas separada do mar atlântico
por línguas de areia onde
se desnudam corpos escaldantes
(flores brancas em bronze
vindas de longe)

o sol aquece a praia
descobre a vida
dá-lhe magia fantasia
põe sonho onde por vezes
só pesadelo havia

mas são ciclos de vida breves
flores reais só passageiras!

mal se mostram
logo murcham desaparecem
e a noite acaba por cair
no mesmo chão
que ora é quente
cor beijos fruto infinito
ora entristece desaparece
muda arrefece

fica no espaço florido
um espaço deserto
onde os passos lestos inspirados apaixonados
se tornam pesados frouxos
arrastados
sem motivo para se animarem
na noite longa que sucede
a cada adeus
a cada ciclo

dia tantos de tal
Abril em Portugal
não o será jamais!

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...