sexta-feira, setembro 12, 2008

ponte frágil


Sinto-me apartado de ti
sem o querer
ponte frágil
num precipício qualquer
quase a cair

entre os dois lados
em baixo
o abismo o medo
o sobressalto

para quê passar a ponte
e arriscar?

terreno minado de fantasmas
tempo que passou
morreu...

dizer o quê?

na dúvida das vidas separadas
azedam as palavras
na distância
só o imaginário é cor de rosa

o resto é o conta gotas
da sobrevivência
onde o que conta
não é o poema
a promessa que se fez
de amor eterno

mas a vida real
a dependência
o dinheiro essencial
o afecto que se encontra
ou que se compra
para aliviar as noites
longas de insónia

sexta-feira, setembro 05, 2008

entre a palavra e o gesto

Que entalado que estou
entre a palavra e o gesto
entre corpos barulhentos
à frente atrás
e o meu silêncio
que me pede tanto!

olhando timidamente para trás
vejo-te e gosto
"faz qualquer coisa avança"
diz-me uma voz

mas dentro de mim
uma força exausta
anula a insistência da voz
paraliza-me

sinto as vozes passar
uns olhos brilhar tanto
como faróis para eu seguir
eu em vez de andar arrancar animar
fico a sumir
no passeio estreito
esmagado por sons
silêncios
que não têm nada a ver
com o que quero

cobarde e solitário
na essência do desejo!

vá inventa
arranja uma desculpa
(continua a voz)
sobe desce cansa-te
esquece
porque o que te falta mesmo
é ver o que está perto
e te apetece

e por estranho que pareça
isso cansa-te mais do que fugir
partir fingir
ou mesmo subir
o Monte Evereste

embrulho mental

Além dois homens
um franzino outro encorpado
carregados exaustos
transpirados
entregando encomenda enorme
no casulo alto
de um casal do prédio grande

são móveis que transportam
qualidade mogno pau brasil
condensados em tal tamanho
que não cabem no elevador
moderno

são as escadas intermináveis
prédio acima
o caminho necessário
íngreme achatado
para justificarem o ordenado

coitados deles triste de mim
quando àquele peso me comparo
embrulho mental que sou
construído arquitectado
que às vezes sinto tão pesado

justifico assim como eles
o ordenado
no dia a dia transpirado!

que na qualidade de vida...

um tal peso antiquado
histórico arquivado
mais atrapalha do que ajuda
numa vida que se quer
natural
agradada e leve

segunda-feira, setembro 01, 2008

os meninos e a intuição

Não fica bem o menino ser o pai
o forte o poderoso
deixar o mais idoso
perturbado baralhado

tantos milénios de sabedoria
para quê?

sei que um menino cresce
fica maior
inteligente

os cursos não param de nascer
mais complexos
exigentes
que fazem do menino
um sabichão
que lhe podem dar poder
armas melhores ali à mão
e mandar assim no mundo

mas então...

e o respeito pelos mais velhos?
os que já viram nos seus rios
correr fel e mel?
que construiram enfrentaram
persistiram
para que os que ainda não eram
pudessem vir a ser?

aceitemos os meninos na sua rebeldia
ousadia
demos a mão à sua novidade
mas atenção
não os deixemos fazer tudo
se se excederem na intuição

porque pode matar-se o mundo
com tamanha confusão

despojado do meu ego

Chegava àquele lugar
ido de longe
senti-me despojado do meu ego
nem bens
nem amigos
nem gente ou sítios conhecidos
ou carro próprio para me deslocar

podia nem sair do aeroporto
voltar para trás
como sempre faço
quando aumenta o embaraço
tomava o primeiro avião
rumo ao aeroporto
onde o meu ego se sente em casa
e em conforto

mas não
decidi ficar

como os olhos e a mente complicavam
a estranheza do ambiente
fiz como algures li
e aprendi

sentei-me aonde pude
e desligando o olhar e o pensamento
fixei-me mais no tronco
e nos ouvidos
e em alguns instantes
o milagre acontecia

não recuperei o ego
e os artefactos
esses estavam longe
mas o ser sim
senti-o brando
com as raizes que me puseram no mundo

talvez pela primeira vez
num sítio estranho
perigoso ao mundo dos olhos
e da mente
fiquei sólido enraizado
confiante

mesmo sem entender nada
nem conhecer ninguém
já parecia eu mais dali
que os dali
tal a serenidade que sentia

pensamento perdido

Quando os olhos se perdem
nas luzes que ofuscam
no desempenho dos outros
no fora de aqui

quando o pensamento
voando no tempo
em busca de nada
restos
migalhas
me põe pesado
triste perdido...

eu grito: BASTA!

abrandem olhos perdidos
ansiosos
deixem o sonho
as idas tão longe
voltem a mim

e tu pensamento
que vais ao passado
enganos e perdas
que triste que estranho
voltas a mim!

quem sofre sou eu
o riso não vem
o doce não vem

o próprio Universo
ao ver-me assim
cabisbaixo pesado
fugido
zangado comigo
não gosta de mim!

o mesmo mar outras as águas

O mar que me banhou
menino
é o mesmo mar
outras as águas

a felicidade que me beijou
menino
a mesma felicidade
outros os beijos

que ilusão que é
a marcação cerrada
dos anos
o julgamento exausto
do que foi
e do que é

ou do que foi
e já não é!

mais parecem vagas
de enganos
vêm e vão
vão e vêm
a aparência
sabe sempre a repetição

só mudam mesmo
as marcas
que o tempo deixa
no fluir obrigatório
da existência

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...