domingo, dezembro 03, 2006

protesto revolta

Que posso fazer pelos outros
sem primeiro fazer por mim
que posso dar sem semear

o fruto vem depois de plantar
cuidar
depois de andar dedicar muito amor
a tudo

colher antes como pode ser

antes de madrugar lavrar sentir tocar
arriscar
ninguém vai a lado nenhum

eu posso protestar fica o protesto
eu posso-me revoltar fica a revolta
eu posso até ter razão
no sentimento e nos actos
na atitude que tomo solidária
de ir para onde os outros vão
de estar com eles no entendimento social

mas no fim das bandeiras no ar
do desfilar voraz
compacto
ombro a ombro braço a braço
grito a grito
que ficará no silêncio estéril do meu quarto
sem ver sequência no tempo dado
sem ver sementeira e só queixume
e sentir que logo mais logo um dia vai nascer
e eu na mesma

queixoso cansado adiado
sem enxada nem arado nem coisa nenhuma

e a multidão que faz a multidão
a esta hora em que me devora a noite(?)

sinto-me tão atrapalhado

Se eu lhe dissesse baixinho
naquele ouvido branquinho
arrepiado em sussurro
tão agradado em sorriso
o que lhe queria dizer

mas por onde começar
sinto-me tão atrapalhado
talvez para impressionar
uma história de pasmar

eu perdido num campo
território francês
anarquistas cabeludos
políticos fartos discursos
eu na tenda ensaiando
um caminho sem futuro

ou a outra em que estava
bandeiras berrantes cores
alaridos ruas apitos
intensa berraria gente
carros tanques e gritos
para derrubar o presidente

ou a aventura em África
calor tórrido eu no mato
guerra aberta eu corria
tiros mortos muitos feridos
em um silêncio de morte
uma emboscada na vida

e neste desfiar de rosário
de que modo impressionar
dei-me conta a transpirar
cansado de tanto pensar
que a carinha afastava
levando o ouvido e o sorriso
incapaz de aguentar
o meu silêncio deprimido

e era tão simples o que lhe queria dizer

liberdade a quanto obrigas

Liberdade nunca é demais
há quem diga
mas se a liberdade é demais
cada um para sua banda
acaba tudo aos ais
sozinho e sem comando

sou tão linda danço bem
eu sou toda exigente
não me dou a qualquer um
eu cá sou toda peixeira
ninguém ouve mas eu falo
pois a mim ninguém me cala
eu encosto ali ao canto
durmo e descanso deitado
e assim faço o que posso
a mais não sou obrigado

tal qual manta de retalhos
uma liberdade sem leme
cada retalho faz falta
a manta precisa deles
mas depois tão separados
tem que haver quem os ajunte
coitados

neste propósito lembrei
que certas modalidades
em desporto conjugam
e bem
figuras livres e também
figuras obrigatórias

que liberdade demais
leva a grande solidão
como levava o degredo
em regimes de opressão

e olho aqui para nós
viveiro de tantas cores
sonhos e tantos calores
retalhos de tanto lado
só com ampla liberdade
sem nada de obrigatório

um dia destes cansados
de coração destroçado
livres exangues num canto
acabamos entregados em gang
ou seita quem sabe

e como um bem abraçamos
rezar em êxtase em vómito
ou o alheio roubar
e mobilizados lutamos
contra a liberdade que fomos
sem nada por que lutar
e em que nos sentimos tão sós

mudar o lado do disco

Custa tanto a perceber
nesta vida que levamos
tantos conceitos cansados
tantos hábitos repetidos
má tradição feita vício
que tardamos a aprender
mudar o lado do disco

tardamos em perceber
que do outro lado existe
uma atitude fantástica
um renascer com mudança
que pode muito bem ser
a terapia acertada

uma questão de atitude
de um lado o disco riscado
que chatice mais um dia
problema e mais problema
tanto esforço em vale de lágrimas

do outro feito arco íris
toque de deusa e de fada
cada dia é uma dádiva
cada dia tem cá tudo

o sabor amargo expira
o sol nasce e nos inspira
vida vida e mais vida

a música toca e anima
o rio lama já cansa
optimismo contagia
vira o disco e caminha
rio de amor abundância
vira lado positivo
descobre a criação perfeita

segunda-feira, novembro 27, 2006

outra primeira vez

Que fome de SER e que medo
diante de um mundo de caras diferentes
que dou
que tenho
que ofereço
que amigos
que digo
que faço
quem escolho quem brinca comigo
tal como na primeira aula de francês

que castigo se falo(?)
que castigo se mexo(?)

vindos de lados diferentes
juntos na dúvida
na mesma turma

que sonho(?)
que ali(?)

na carteira ao lado
no olhar mais brejeiro
o som das palavras que a professora entoava
não significava muito
porque a turma sentia no meio do medo
do primeiro dia de um passo novo
que havia tanto por vir mas tanto
que juntos no cheiro no riso no remexer nervoso do livro
nas faces rosadas
que mal se ouvia
a voz compassada e suave
às vezes grave
que justificava para nós a vida a nascer
perdidos e achados
numa turma de francês

assim foi ontem Lisboa ginásio
não a aula de francês
mas outra primeira vez

encolhidos mostrados
medrosos no sonho
olhando e corando
sorrindo e calando
em jardim de pessoas
que bem podiam
ser cravos ser rosas
lírios mimosas
arbustos hortenses amores de todas as cores
ou árvores frondosas

um jardim do mundo
sem guerra nem ódio
nem fome nem dor
só música de flores
e vento suave empurrando as flores
para se tocarem trocarem odores
para se cheirarem e se abraçarem
para nunca se sentirem
nem tristes nem sós

domingo, novembro 26, 2006

um tempo um olhar

Olhei os olhos dela permissão de estar
li a resposta na retina dilatada sorridente
e entendi que podia ficar

primeiro olhei devagarinho
sem magoar
depois entrei porque senti que podia entrar
entrei devagarinho depois bem profundamente
até ver aqueles olhos bem pertinho fundirem-se nos meus

como brilhavam e ficavam água macia

e com o tempo acontecia
uma cadência incontrolável de imagens palavras qu eu via e lia neles

espelho de mim aqueles olhos coração
fogo mar e céu em emoção
flor beijo mel rio e fonte
parque de toda a fantasia

em baixo enquanto o fogo do olhar acontecia
o meu corpo tremia
os impulsos que vinham de cima e a força deles
tiravam força às pernas e aos sentidos todos
e a minha mão perdia-se numa fogueira pequenina
sem saber o que fazia
tocando entretida um sítio algures escondido no corpo que a acolhia

intuitiva a minha mão sentia o aproximar inevitável do adeus
tentava em vão evitar o fluxo do tempo
pressionando o sítio bom onde pousara
mas o tempo é tempo e passa sempre
inexoravelmente
tinha chegado ao fim mais um momento mágico eterno

antes porém de se cumprir o fluxo inexorável do tempo
antes de se fecharem os olhos em devoto recolhimento
uma lágrima teimosa caía nas mãos que ainda se apertavam

tombou morna tranquila
naquelas mãos que se queriam como os olhos
baptizou-as para sempre em água de instante cor de rosa
regando-as com a palavra
AMO-TE

respiração profunda que incendeia

Na respiração profunda que incendeia
coração com coração
não me lembro bem que aconteceu
porque quando a alma solta fica só mesmo coração
coração tão grande como o sol

envolve aquece derrete
mãos rosto pernas enfraquecem
desaparecem
fica apenas manto de êxtase
um eu num tu dentro de mim
de que nem se sabe falar
nem escrever
nem recordar

talvez porque a mente não pode acompanhar
não consegue registar um tal sentir
e adormece
desiste
sai da festa

e só depois
quando a mente acordou
voltou a si
deu para entender que escapuli
desintegrei

que fui anjo milagre
diabo sacrilégio
mal e bem
tudo e tanto
longe e perto
onde não sei

só sei que sinto-me tão bem
com o olhar assim
feito farol incandescente
o peito sossegado ardente
as pernas inseguras
cambaleantes
um estranho vaguear de quem desperta
de quem não reconhece logo o terreno que pisa
e tacteia e estranha o que vê à sua volta

que só posso acreditar
que os meus sentidos me levaram
ao sítio melhor do universo

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...