terça-feira, janeiro 19, 2010

culturas e credos


Um é árabe outro judeu
um é índio
outro cigano
um é preto outro branco
um antárctico
outro árctico
um é outro
o outro eu

aquele é capitalista
aquele outro comunista

com a cultura muda o deus
uns Alá vê se me acodes
outros credo ai Jesus
outros Buda céu e paz
outros só na sua cruz

depois ninguém se entende
e zás!

que pena que faz
que a cultura
em vez de unir
trazer a paz
faça dividir
mate a esperança

que a fé sentida
muitas vezes pão da vida
seja desculpa de matança

olhando Deus assim
pondo guerra na gente
pela diferença de credo
por cultura diferente
apetece ser inculto
até descrente

e viver somente
como vivem
as árvores os outeiros
os regatos
os pirilampos
os gatos
as flores

natural e simplesmente!

sábado, janeiro 16, 2010

dinheiro


Na moral antiga
ficava-nos a impressão
de que ter dinheiro era bom
útil
se não fosse ostentação

ao dinheiro honrado
associava-se dificuldade
esforço
trabalho suado

a intelectualidade pregava
temendo a burguesia
que ser rico era defeito
cartola explorador
latifundiário fascista
colonialista

dizia-o com razão
só que também o dizia
pela ambição de poder
pelo medo que as liberdades
fossem oportunidade
de o povo enriquecer

e de tal forma o fazia
que logo a má língua atingia
os que depreciativamente chamavam
de pequena burguesia

século XXI modernidade
elites sem proletariado
povo mais esclarecido
abastado
delas menos precisado

sem qualquer hipocrisia
que vingue a ideia
a empresa
a oportunidade
que a maior escolaridade
gere criação de riqueza

que circule em quantidade
esse bem essencial
o dinheiro
e que a sua distribuição
inunde o mundo inteiro

terça-feira, janeiro 12, 2010

Gente civilizada


Gente civilizada
em prédio de cidade
t1 t2 t3
em cada andar
gente a tentar coabitar
sem incomodar

porque ao tossir
fazer amor
gritar
tudo se ouve
há que baixar o som
da voz dos passos

conter a dor e o prazer
as tarefas e o lazer

leva o cão o dono
ao elevador
a vizinha o lixo
ao contentor
outro cruza o corredor

dão-se espaço
para não se tropeçar

quando algo sai do habitual
um ruído maior
um desacerto
na silenciosa contenção
põe-se em risco a lisura
por protesto em reunião
de condomínio

ali sobra frustração
de tamanha civilidade
salta a tampa a um vizinho
ela é puta ele é cabrão
logo o pormenor fica ampliado
em histérica discussão

sabe bem ser civilizado
não chatear nem ser chateado

mas com tanta contenção
tanta distância cultivada
ou começa tudo aos gritos
mesmo fora da reunião
ou ai Jesus ninguém me toque

uma autonomia isolada
sociedade alienada

gente sem rei nem roque!

segunda-feira, janeiro 11, 2010

desemprego


Em solidão expectativa
desolado
não importa a idade
que vazia fica a vida
do desempregado

a noite mais comprida
o frio mais gelado

há medo
medo amigo
que faz reagir
partir fugir
para um abrigo

pode ser vício ócio
fuga escape
tudo é melhor
que suportar o tédio
o cheiro a morte

só que o medo é cego
pode alimentar
um outro mal
que não se quer

faz reagir
mas nada resolve só por si
por se fugir

para vencer a condição
de quase marginal
“à beira do abismo”
desta chaga social
há que intervir

qualquer cidadão
só pode ter alma
quando se sente
em vez de excluído
em inclusão

pois que em vez de tédio
que haja esperança
que viva o emprego
a ocupação

para o bem geral
que se cultive
com perseverança
o Estado social

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Ateus


Mundo desigual chocante
torto
que distribui mal
o abundante

sobram restos
do consumo
desregrado exagerado
que se faz

diferentes latitudes
uma fome de tudo
paz bens
saúde

longe fica a fonte
dos avanços
tecnológicos
das férias gozos
produtos luxuosos

do desperdício que fede
e incomoda

difícil canalização
de excedentes
de um lado sem escrúpulos
os ricos
do outro
sem escrúpulos
os donos dos carentes

espelho disto
são os olhos tristes
das crianças
vindas ao mundo
sem culpa nenhuma
moribundas decepadas
ensanguentadas
secas como cactos
velhas na flor da idade

Corno de África
desolado
(apenas um exemplo
de um quadro alargado)

diante disto
tamanha desigualdade
violência
atrocidade
incapacidade
dá para pensar seriamente
nos ateus
e na sua verdade

pura e simplesmente
“não acreditam em Deus”

domingo, janeiro 03, 2010

tempo de balanço


Fim de Dezembro
princípio de Janeiro
é sempre um tempo grande
vazio férias
dias curtos noites longas
tempo de balanço

para a frente e para trás
um ano inteiro

há que pôr a vida
nos pratos da balança
equilibrar

se o passado pesa
em desacerto
aliviar
se o presente encolhe
e sabe a pouco
planear

vida que pode começar
num passo ousado
a dar
no ano novo

num tampão
numa comporta
à não solução

como estabelecimento
comercial
contabilidade
perdas ganhos
investimento

faça-se o mesmo
a nível pessoal
inverno verão
bonança temporal
capital não capital

que então
feitas as contas
achadas as respostas
frutos virão
novas apostas

natal na cidade


Inverno frio vento
a chover
dez reis de apartamento
de cidade
a gemer

porque é natal
família perto outra de longe
tudo se junta
para comemorar

um de muletas
outro de maca
outro a barafustar
um outro para animar

família jovem
em boa vontade
já filha da cidade
fez jus em os juntar

lá fora chove
o frio aperta
o espaço encolhe

sem objectivo
culto esquecido
não há boa vontade
que aguente
tanta falta de sentido

ferve a comadre
o sogro ronca
a nora espirra

nos que conversam
cruza-se afronta com afronta

conversa inventada
doença por doença
muitas indirectas
de gente enfastiada

a um canto três crianças
uma a abrir prendas
outra rabugenta
outra ensonada

noite de natal
que por nada haver
de ritual
por já nem se falar
no menino Jesus
em vez de fazer bem
faz mal

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...