sexta-feira, janeiro 09, 2009

determinação e gongorismos


Ai que tempo que se perde em gongorismos
da palavra
teorias prolongadas!

era para ir e já não vou
era para fazer e já não faço
era para alargar o passo
e encurtei-me aqui

parei nos entretantos
nas conversas consentidas
vitória das curvas complicadas
das ruelas sem acesso fácil
nem saída luminosa por estreitas

perdi as rectas planas amplas largas
cheias de velocidade e horizonte
e espaço
que num instante
ultrapassam os limites do tempo…
quedei-me num tempo parado na distância
medo noite
falta de liberdade

como quero mudar avançar
se ao mais pequeno contratempo
obstáculo
esmoreço hesito vacilo e paro?

como quero ser grande moderno actual
se tudo faço para ficar pequeno
antiquado retrógrado ancestral?

o sonho mora aqui
onde estou
e se animar com ele porque acredito
e não me quedar em labirintos
jogos de falar para entreter
logo virá o fruto que semeio
oásis novo no deserto de antes

passividade e feminino


Ouvir ficar passivo expectante aberto
mesmo que seja por momentos curtos
passageiros
em atitude atenta e receptiva
quietude
tem o seu quê de feminino

o outro manda dispara
sons palavras discursos
sermões ordens ameaças

quem tiver preconceitos
feridas não curadas
vindas talvez de outros tempos
outra idade
uma necessidade permanente
de afirmar masculinidade…

vai ficar tenso ansioso
quando ficar passivo receptivo
no contacto pessoal
em que para ele não é normal
levar encaixar abrir aparar
porque em seu entender
(cabeça perturbada
lição mal estudada)
isso é mais coisa de mulher

nas curvas contracurvas do viver
quem somos nós para julgar?

há que conciliar
dar e receber
masculino e feminino
no homem na mulher
porque em ambos tanto há
falar arrancar mandar
berrar caçar montar lutar

como há
ouvir ceder fragilizar fender
parar abrir calar

sábado, janeiro 03, 2009

Portugal meu amor!


Com espanto pasmo revoltado
ouço na tv um entrevistado
homem com nome quanto baste
para ir
a programa de informação
com o intuito de emitir
parecer político supostamente abalizado

que medíocre convite da televisão!

fiquei a saber pela opinada sapiência
que o país dele não valia coisa nenhuma
que em trinta anos só pior havia
nada mesmo
equivalia a melhoria alguma

mais dizia
que o país dele não merecia
o que merecem os melhores
as melhorias ficariam na Alemanha
Califórnia ou Japão
ou em Madrid
nunca no arcaico país em que vivia!

interroguei-me seriamente
se aquele ricaço que falava português
não seria americano espanhol ou japonês
pela falta de amor ao país
da língua em que fluentemente
se exprimia

mas não
era simplesmente um ex ministro velho
com saudades bizarras hoje
do Salazar do escudo da carroça
tais eram os insultos saudosismos
e outros ismos que culminavam
no culto de arrepiante pessimismo

no mínimo eu entendia
que o senhor que falava
detestava liberdade democracia
pelo que estas maltratam mordomias

ainda bem que Portugal é grande
e perdoa a portugueses tão “pequenos”
compreende-os ama-os na mesma
mesmo que o insultem o achincalhem
queiram fazer dele o bode expiatório
de invejas e fracassos próprios!

ergue-te Gama ínclita geração
de altos infantes
reis
trovadores
republicanos
liberais
navegadores
gente valorosa deste país enorme
jovens gerações irreverentes
competentes

digamos de vez a estes senhores
que queriam que o mundo português
fossem só eles
mais meia dúzia de lacaios…

que se calem de vez!

e deixem que Portugal se cumpra
com políticas hoje
em sonhos grandes
Camões Pessoa Florbela Alegre
painel infindo gente de valor
língua portuguesa entre as primeiras

país Portugal terra atlântica europeia
meu amor!

sexta-feira, janeiro 02, 2009

o sonho perto perto!


Fiquei frágil estonteado
a conviver
com possibilidade e impossibilidade
no meu fado

por um lado o desejo visceral
o querer

por outro
o mental com a sua frieza
racional

sempre tirando disciplinando
reprovando
qualquer iniciativa
movida pela intuição

no fim de contas
a eterna luta
entre o que sim e o que não

é mal? é bem? é assado?
é assim?
em que ficamos?

faz mal tanto julgamento
na intenção!

porque entretanto
no lapso de tempo em que há disputa
luta inconsciente
a oportunidade vai-se
e nada se agarra
nada se lucra

saio como entrei
pobre e sem vintém
com o sonho em águas de fartura
perto perto
que não agarrei!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

tensão e meditação


Deixar ir a tensão
o ar preocupado crispado
com meditação
dar lugar à serenidade
uma postura confiante
esperançosa
em paz radiante

que melhor antídoto
para a agitação que é moda?
a agressão que grassa?
a complexidade que sufoca?

pode ser o recarregar da bateria
o descansar da actividade permanente
a pausa à inquietação
que nos devora

afinal se quisermos
basta estar parar e respirar

que mesmo em grande barafunda
caos
é possível recriar um espaço
neutro
no lugar

onde por momentos
e sem investimentos
a vacina contra o mal estar
acontece!

imitação evolução


Quem não deu já por si
a gizar um gesto conhecido
de conhecimento antigo?

a corrigir um acto
(condená-lo aprová-lo)
com palavras de hoje
ouvidas antes?

imitação natural
produzida em tempo diferente
que é o mesmo que dizer
progresso com diferença
qualidade acrescentada

não se pode falar de fotocópias
pai filho geração em geração
apenas cópias
aperfeiçoadas
modernizadas

tempos novos tempos idos
soma de ritos
repetidos de outra forma
parecidos mas mais evoluídos
na imitação e na sua aplicação

também enriquecidos pelo contágio
circundante
do estágio
cada vez mais avançado
da civilização

um povo armado


Um povo armado até aos dentes
num dado conceito
é forte teme-se
e quem o enfrenta
sofre morre
acagaça-se só de o ver
com os dentes de fora

o forte ataca mata
transforma em sangue derramado
frio
o sangue vida
que era quente

grita-se glória heróicos feitos
celebra-se a possibilidade tecnológica
de matar com grande jeito

os nómadas em parte
perderam assim a liberdade
o céu aberto
tendo a linha do horizonte como limite derradeiro
atrás e á frente

fecharam-se agruparam-se
ergueram muralhas no lugar
na ilusão
de assim serem mais fortes

só que os iguais olhando o feito
seguiram o exemplo sedentário
barricaram-se também
e as fortificações multiplicaram-se
anularam-se

ao medo antigo de errar pela pradaria
em grupos expostos pouco armados
deu lugar o medo novo
couraçado poderoso
mas isolado amedrontado e só

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...