terça-feira, janeiro 15, 2008

de que serve...

De que serve o amor
se se andar
sempre a começar

de que serve sentir
se não se partilhar

de que serve a saudade
se a esperança
murchar

de que serve desejar
querer
se nunca se avançar

de que serve um ideal
um sonho
se nada se fizer
para o concretizar

é como semear
plantar
sem nunca ter frutos
colher

imobilidade no sofá

Muita coisa passa pela cabeça
muita tralha
e nada de concreto se desenha

inverno idade sexo
o menino Jesus sem pai biológico
paz violência
meninas famosas
prostituição
políticos babosos
bola corrupção

que posso considerar-me
um produto acabado
alienado
pela televisão

para além dos olhos
também no pensamento
entram imagens
de todo o império mediático
qual loucura do inconsciente
que come e cala e nem procura

ou se procura
fazendo zapping
já nem sabe o que é

depois em rodapé
mais sub-repticiamente
brota um corrupio de ordens do consciente

em tal quantidade

que a imobilidade
que por vezes sinto no sofá
diante da loucura da tv
balofa vazia oca

é a mesma que sinto agora
para fazer qualquer coisa de concreto
e dar para isso o passo certo

sexta-feira, janeiro 11, 2008

criança e sol

Noite ainda
as estrelas a brilhar a cintilar
o universo
a brisa matinal a aparecer
a luz a clarear
e o tecto aconchegado com estrelas
a desaparecer

um cordão umbilical cortado
em corpo a arfar
um instante um grito
uma nova vida a despontar

criança e sol um caminho a percorrer

espaço imenso sobe desce
aquece às vezes ou arrefece
até o cair da aurora acontecer

para o sol apesar de desaparecer
o ciclo recomeça sempre
e no dia seguinte
volta a nascer

pode ser que a vida
para cada menino a nascer
a crescer a envelhecer
seja como o sol
e que quando se esconde
desaparece
apenas vá como ele
dar uma volta qualquer

e depois torne a nascer

tu és as reticências...

Equivocar-me em ti não me faz mal
é como pôr reticências numa frase
ir voltar
depois continuar
custa menos a viver só por as ter
fica sempre qualquer coisa em aberto
por escrever
que motiva o passo próximo

tu és as reticências
do que fica por contar

ouro platina
um talvez bom
que mora nos teus lábios
no sim que só eles podem dizer

és sorte grande por sair
que só de se imaginar
que o dia certo vai chegar
se anima

admito o equívoco de ti
do bem que faz

por ser assim
aceito a frase por continuar
as reticências
o sim por pronunciar

tenho sempre algo em aberto
por escrever
que mora nos teus lábios

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A dor do stress

Às vezes as costas
sinto-as doer
os olhos fogem receosos
do que é tanto e tanta a cor
que já nem conseguem ver

fixo então lugares estáticos
parados
um edifício um arbusto um telhado
uma torre de uma igreja
uma água furtada
qualquer coisa que me afaste
do incómodo disperso
movimento caótico

consigo quando o faço
aliviar a dor nas costas
sorrir até da ousadia que é
deixar de ligar ao que mexe
para me dedicar o quanto posso
ao inerte
abandonado
ao que toda a gente esquece

claro que é só uma ousadia
pouco o tempo em que o faço

porque logo andam
desandam cirandam
à frente atrás ao lado de mim
olhos ansiosos frenesim
que depressa desafiam
o hábito de monge que vesti
para abrandar a dor do stress
que nos põe histéricos
e nos enlouquece




Fiquem bem,

António Esperança Pereira


o ideal existe

Procuro não ficar de lado
e participo

até sinto a princípio entusiasmo
fico em contacto
leio livros acredito
sou mais um que sente falta
de um lugar com ideal
e lá vou eu

ali existe
entende-se aplica-se
chega um mais um mais outro
o grupo aumenta
o grito cresce

de tal maneira fica forte
que nos leva quase ao infinito
sítios reuniões conspirações
lutas abraçadas sem quartel

e é já no envolvimento
quando a voz deixa de ser a minha voz
o meu sentir deixa de ser o meu sentir
na multidão que marcha
no compacto onde me perco
que mais uma vez desisto

em mais uma tentativa de alinhar
ser solidário coerente
ter ideais
participar

e não consigo

domingo, janeiro 06, 2008

dança que dança

dança que dança
vai volta a vir
bebe e esquece
para quê pensar?

ali sabe a muito
é bom e anima
uma hora de céu
três horas de mim

lá fora arrefece
indiferença enlouquece
estátuas de cera
de costas voltadas
relações cansadas

que é daquele sangue
sabor a mel
do quente dos corpos
dos lábios abertos
das línguas molhadas

que é do convite
que em ânsia se solta
e o apetite
que remexe em revolta

transpira suspira
estremece aquece
transgride
ecoa em gritos
gemidos
em bênçãos de abraços
de ventre parido

e acaba no espaço
no dentro
no nada
no perto
no fruto grado
comido salgado
que sabe tão bem

dança que dança
vai volta a vir
bebe e esquece
para quê pensar?

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...