quarta-feira, dezembro 05, 2007

stress do dia a dia

Porque mereço eu isto?
porque estou tenso assim?
acaso não existe mais dentro
de mim
aquela criança que brincava
sem parar
que corria
que partia à descoberta
de tudo
o que se via e não se via
que desafiava o tempo
o espaço
e de qualquer coisa ria?
acaso não existe ainda?

amor total

Amar é evasão total
andar a gosto na enseada na avenida na calçada
sem sentir nada
e tudo sentir

de tal forma soltar olhos e ouvidos
que tudo pareça natural
a harmonia dos telhados
desenhados a espaços de andorinhas
o barulho tremendo do progresso
o som cantado e encantado de varinas

a surpresa do virar-se sem querer
a exclamação maravilhosa
ao raiar do sol amanhecer

bater palmas sem ninguém as merecer
tombar na relva sem reparar
e chegar a um qualquer entardecer
sem dar por isso

que bom seria
tudo a acontecer assim depressa e bem
a leveza espalharia em redor
por contágio de alegria
a paz o êxtase
o amor total

o mundo seria então uma criança

eu queria um amigo

Entendo e não entendo
quero e não quero
faço e não faço
fico e não fico
vou e não vou
amo e não amo
sou e não sou

fico sempre no princípio do resto
na dúvida
e esqueço mas não esqueço

um passo dado
parece errado
o mundo parece diferente do que faço

queria encontrar
o caminho certo
um lugar seguro

para começar
eu queria um amigo

vitória de Freud (ou a queda do muro de Berlim)


Por mais que me tentem convencer
que o muro caiu porque tinha que cair
que o ideal murchou naquela gente
que o papa polaco ajudou
que os avanços que havia eram só treta

tenho para mim
que o Freud
lá onde estiver
se deve rebolar com risos e chacota
disto que se diz

porque o muro caiu sim
mas pela abertura ao sexo
no ocidente
ao simples ao fácil
ao tudo ali à mão por dez tostões
à distância de uma prestação

as mulheres e os homens de leste
podem ser fixados
tristes
alienados
pelo cinzentismo dos capotes militares
por muitos anos de rigorosa planificação

mas atenção
alguém se esqueceu
que aqueles homens e mulheres não são capados
e foi então
que o grito de revolta soou

"abaixo o muro"

que era o mesmo que dizer
também queremos gajas nuas
sexo abertura
o mundo todo na mão
com uma modesta prestação

O Lenine não sabia nada de Freud
porque se soubesse
tinha posto outros símbolos na bandeira
mais brejeiros
não o trabalho compulsivo
e o sério da foice e do martelo

assim
perdeu a guerra nas partes baixas

apeou-se o muro
e fica o aviso aos senhores das revoluções
para a próxima que façam
não se esqueçam de ler Freud
se não
não há muro que resista
a tanta tentação

corpo mente e casamento

A resposta diferente
que encontram corpo e mente
no elo vivencial

é como num casamento
sem amor de ambas as partes
o que um quer o outro não quer
um diz sim
o outro diz não

sem encontro comunhão
nem um parco entendimento
aumenta o distanciamento
cresce a desunião

uma ligação fracassada
debaixo do mesmo tecto
uma vida desperdiçada

sofre o corpo
sofre a mente
afinal como no casamento
porque ali não há paixão

convinha estar atento
quando um já ganha avanço
o corpo é sempre mais lento
a mente mais inteligente

afiná-los é urgente
para salvar a união
evitar que um vá em frente
e o outro não

frágil e sozinha


De branco vestida
curtas roupas na cintura
no decote
no macio liso das perninhas
frágil e sozinha

num mundo intenso de consumo
rosa morango fome de comer
nesta solidão maior
de desejo de frescura
acicatado pela tv

também por sonhos de modelo
já se vê

que loucura menina
andares assim aqui
que risco desafio
que arrepio

há muita gente aqui
homens que passam
que olham para ti
que te desejam

lembras pintainho perdido
da ninhada de sua mãe

quem te apanhar assim
branca ingénua e verde
ou vai ficar doido de feliz
ou vai meter-se num sarilho
dos diabos

e meter-te a ti

avaria na rotunda do marquês

O meu carro avariou
na rotunda do marquês

com a sorte do meu lado
pois era a primeira vez que ficava empanado
ia já para uns pares de anos
fiquei como se fica
nestas situações
enervado

tudo a passar eu ali parado

entrava no carro saía
tentava acalmar não acalmava
até que uma jovem polícia apareceu
depois de outros agentes também aparecerem
solícitos cordiais
a perguntarem como estava

vinha de mota
e eu que já gostava de motas
depois de a ver
passei a gostar mais de polícias

descobriu num instante
coisas que eu não descobrira
pegou no triângulo que assinalava a ocorrência
que caíra
por mim mal encostado
à traseira do carro avariado
descobriu-lhe uma terceira aba
e colocou-o à distância certa

foi então que a rotunda virou ilha
eu era o náufrago e seguia
todos os movimentos dela
elegante eficiente imperturbável perturbante
deusa agente
indescritivelmente bela

até parecia como no imaginário
que na minha pele de náufrago
a barba me crescia
e os olhos ficavam esbugalhados

como não há bem que sempre dure
nem mal que nunca acabe
a linda mulher partiu
eu fiquei a olhar para ela

e um dia que parecia estragado
complicado pela avaria
acabou numa lição de cortesia
amor e simpatia
que deixou saudade

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...