segunda-feira, agosto 13, 2007

sexo e modernidade

Era grande a ansiedade
inquietação desmedida
que de repente acontecia
na vida de Afonso Guerra

funcionário de um banco
fora sempre admirado
pelas qualidades que tinha

só duas nódoas manchavam
a exemplar vida deste homem
os cigarros que fumava
e um copito que bebia

com a vida equilibrada
filhas já na casa delas
algo insólito acontecia
no aconchego de Afonso

o coiso ficou sem força
o sono logo alterado
pesadelos mais que muitos
de tal maneira cansado
que já nada apreciava

não sabia que fazer
pois se a mulher era sonsa
discreta no seu viver
nunca Afonso percebera
a vantagem da mulher
de não precisar de mostrar
o que o homem tem que ter

Afonso não aguentava
tanto mimo da mulher
sempre muito preocupada
aninhada em volta dele
o que só lhe agravava
o desespero que sentia

e foi muito às escondidas
que certo dia sem querer
um remédio descobrira
que ajudava a subir
o que nunca mais subira

foi a reviravolta total
nesta fase complicada

e a sonsa da mulher
toda gozada com a folga
nem podia acreditar
ele tomava um comprimido
e era um nunca mais parar

era tal o desempenho
renovada a alegria
que o director do banco
com tamanha eficiência
tanto vigor demonstrados
logo de mão beijada
lhe confiou a gerência

a mulher atordoada
coitada
aguentava como podia

tanta era a violência
do que agora experimentava
que em muito ultrapassava
o que a mãe lhe ensinara
e as telenovelas que via

e Afonso acelerava
ela quase enlouquecia

segunda-feira, agosto 06, 2007

Olhão em quadras ternas


Olhão não mates meu sonho
a Faro eu quero ir
Algarve terra distante
Brancanes quero sentir

sob toda a realidade
em que assenta a minha vida
tu és uma raridade
meiga bonita querida

é tão terno o teu olhar
tão suave a tua voz
dá vontade de ficar
contigo olhando o mar

nunca fiz amor contigo
nem preciso de fazer
para encontrar abrigo
no teu corpo de mulher

basta-me um largo sorriso
um olá com suavidade
e logo sinto um aviso
de uma imensa felicidade

mulher

Eu sei que não
nem sempre a vida é gajas boas
nem sempre se diverte o corpo num bagaço
ou numa pipa de vinho

a vida passa
a vida dói
a guerra tira um braço
a doença leva quilos de saúde e cor
e traz cansaço

a morte espreita a cada um
como foice aguçada em cada esquina
e o desalento
quase ocupa a parte grande do tempo

eu sei que é assim

mas quando os meus olhos se descuidam
e desenham com trejeitos tremeliques
um corpo lindo de morrer
fresco como a horta em madrugada
quando sobre ele cai formosa e branca a geada
em contornos que deixam adivinhar
céu purgatório
fogo inferno

mulher

que pele tão lisa
que nudez pouca para quem te quer ver toda
andar singelo perturbante
pernas esguias
num compasso que desafina qualquer sinfonia

mulher

tu desatinas
o mais puritano dos paroquianos
que sem querer e ao lado da mulher
não deixa de visitar
os teus seios
o teu colo
o teu traseiro

nada mais vivo e estimulante
nada que faça simultaneamente
tanto mal e tanto bem
obra de deus e do diabo

mulher

como compreendo o padre da minha terra
que um dia ao ver uma assim
apetitosa e bela
não se aguentou sem experimentar

ergueu então a fronte aos céus
e tremendo delicadamente
disse:
“perdoai meu Deus por amar esta mulher”

Rolando Toro (84.º aniversário)


Num mundo complexo violento
alguém sonhou ousou implementou
que sensações e sentimentos
fossem retomados

que o racional o tem que ser
pudessem ter a contrapartida necessária

um ritual de festa
sabor a gente
em movimento e ninho reunidos
com ar rosado de alma confortada

o olhar que fica onde se fixa
sem ser preciso pedir nada
e com ele a emoção que anima o passo
na essência que volta
aos gestos reprimidos
esquecidos

dádiva vida abraço

e é ver a esperança renascida
no cuidar e ser cuidado
na emoção perto do sonho
bem diferente dos mitos ensinados
bem diferente dos hábitos incutidos

alguém sonhou tão simplesmente
que as pessoas não se ignorassem
se olhassem se tocassem
se dessem conta do sabor da VIDA
e a celebrassem

que percebessem dançando
o poema vivo que a vida é

estreiteza de horizontes

Caminho apertado via definida
de um lado silvas
do outro altos muros
propriedade privada proibida

debaixo dos pés
a dureza das pedras milenares
de calçada romana
lembrando-me que posso tropeçar
na sua uniformidade
se não seguir atento obediente
assustado

como convém aos donos proprietários
que nos enxotam
com cães ladrando ameaçadores
atrás do arame farpado

ah se o vento dissesse àquela gente
que a utilidade das coisas passa
que não há protecção que vença a morte
e a liberdade ajuda tanto a usufruir
a partilha a felicidade

mas o vento sopra e não ensina nada

num sítio tão bonito
pitoresco
debruado em flor de amendoeiras
videiras oliveiras
com um rio que não é grande
mas que tem tanto amor no barulho que faz
ao deslizar
um caminho que podia ter amoras
outros frutos
aventura

e não passa de um túnel sem paisagem
que desemboca num rio pequenino e triste
porque ninguém gosta dele
nem querem saber dos horizontes grandes
aonde as suas águas pequeninas levam

vizinhos e caninos

Visto assim de longe
por quem desemboca a passo
num espaço grande
vindo de um beco estreito
o que se via
parecia um ajuntamento de cães

se fosse gente
falar-se-ia de comício inauguração

mas não
era mesmo um cacho de caninos
e quanto maior a aproximação
mais conseguia ver o filme que rodava

vindos de prédios novos
ricos luxuosos
acorriam os vizinhos
uns com canzarrões
outros com modelos pequeninos

uma rapariga bem novinha
segurava pela mão com dificuldade
três desses exemplares
um senhor careca duas cadelas grandes
pela trela
uma jovem mãe em alvoroço
coitada
puxava um carrinho de bebe com uma mão
na outra segurava um canzarrão

e o stress dela aumentava quando o cão pousava
cocó fresquinho bem na frente de montra chique
onde uma senhora
que olhava a montra em elevada compostura
se importunava com tanta porcaria

mas educadamente
evitava pôr o olhar sobre o cocó que via
concentrando-se mais
no tamanho do pêlo que o cão tinha
escondendo como podia
o trejeito facial do nojo que sentia

à parte o devaneio
percebi naquele espaço grande
ajardinado urbanizado
uma maneira nova de confraternização

com a falta de ideias e de filhos
que tiram aos vizinhos
motivos de conversação
ao menos ali naquela roda
sentia-se enorme animação

neste caso promovida pelos caninos

relação bizarra

Sei que tens caprichos
que lês a vida qual telenovela
com heróis e sonhos
pesadelos também

uns dias viras anjo
amor candura
uma mão cheia de vida
outros não

envolta em devaneios
fantasias
quimeras de riqueza cinderela
já nem sei quem és
se puta
se mulher casada honesta
ou simplesmente uma criança
que não sabe o que quer

tu que não tens palavras finas
nem jeito para a cultura
chego ao pé de ti querendo afecto
talvez sexo
e só me dás assuntos complicados
deprimentes
que tu própria não entendes
nem são do teu agrado

ou fazes de mim parvo
ou és tu uma parvinha

afinal que queres de mi
atenção à tua cultura(?)

vou tentar
não ficarei tenso sem afecto
ou mesmo sexo
e se por acaso o que eu quero então vier
com tamanho frete
gritarei
viva a "cultura"

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...