quinta-feira, dezembro 07, 2006

sobre a morte

Perguntavas-me ontem
só porque leste uns versos meus
se eu escrevia sobre a morte
se eu pensava nisso
se eu sabia alguma coisa

e vi no teu olhar
(lisonja que senti)
um ar
de quem esperava encontrar
neste arrumador de palavras
neste escrivão de versos
a resposta correcta
a explicação certa

estava cansado demais
para falar da morte
confesso
mas porque sou alguém
que vai no mesmo rio
e as minhas águas são as tuas águas
e te vi preocupada

acabei por te dizer
não penso muito nisso
(era mentira)

é algo que faz parte
da caminhada
como as águas de um rio
que desatinam
com o medo da chegada
eram doces
ficam salgadas

é um novo ciclo que começa
é um mundo novo e grande
o mar
que as espera

mas a mudança
mudança radical
perturba
e é sempre um choque
há sempre um grito

o que é natural

porque depois
vencido o desacerto
o medo
até pode ser melhor
tanta largueza de espaço e de tempo

música sempre

A música tem vida vibração
desperta faz sonhar
leva cada um a descobrir que cantar faz bem
dançar também

o movimento o sentimento
a sensação boa que dão
o jeito que se ganha mexendo o corpo
aliviando a alma soltando amarras

poucas coisas farão melhor ao coração

e não há idade
para gostar de um qualquer som
existe só a escolha a ocasião

porque o que conta mesmo
é o enlevo que se sente
ouvindo em silêncio a melodia
ou sentir barulho a saltitar
ou pura e simplesmente acompanhar
com a nossa voz
o nosso jeito
o ritmo da batida
a letra sabida ou mal sabida
sorrir chorar

importa desinibir soltar
ao mesmo tempo que se dança
ou que se canta

e canto tem que ver com passarinho
dança movimento solto
fazem lembrar uma criança

domingo, dezembro 03, 2006

em ti o sol do oriente

Segurava o teu corpo esbelto e longo pela cintura
linda e vinda do oriente
como o sol
que já em pequenino me ensinavam vir da tua terra
desse oriente longínquo que nem imaginava saber onde ficava

também sabia
que vinha para iluminar tudo
para dar luz
para aquecer

eu aprendia essas coisas que diziam
achava então que o oriente só por isso
devia ser bom e feliz
por ter o sol primeiro que os outros
depois não ficava com ele
deixava-o ir para levar calor ao mundo inteiro

foi isto que pensei
quando hoje senti o sol oriente do teu corpo
sob o céu do meu país

só por pensar isso gostaria de ti

uma flor do oriente aqui na minha terra
ocidente extremo da europa
a melhor prenda hoje para os ensinamentos de menino
alma gentil sorriso de anjo um gesto terno
raio de luz em meus olhos tristes
não por te verem mas por se sentirem pouco ante os teus

quem dera que tivesses acompanhado o sol
quando eu era menino
quando o via nascer pelas manhãs
e só tinha olhos para ele
quando da minha janela o via aparecer
gigante
quase encarnado
uma bola enorme por detrás do monte
que emoldurava um dos lados da minha casa

mas já nessa altura eu pensava muito e não entendia nada

sabia que o sol vinha de longe
que era grande
que subia no céu durante o dia
e depois desaparecia
afinal como todas as coisas que aparecem

mas eu ficava e fico triste por isso
porque gostava e gosto
de muitas coisas que aparecem
e depois desaparecem
como o sol

e não entendia nem entendo porque tem que ser assim

protesto revolta

Que posso fazer pelos outros
sem primeiro fazer por mim
que posso dar sem semear

o fruto vem depois de plantar
cuidar
depois de andar dedicar muito amor
a tudo

colher antes como pode ser

antes de madrugar lavrar sentir tocar
arriscar
ninguém vai a lado nenhum

eu posso protestar fica o protesto
eu posso-me revoltar fica a revolta
eu posso até ter razão
no sentimento e nos actos
na atitude que tomo solidária
de ir para onde os outros vão
de estar com eles no entendimento social

mas no fim das bandeiras no ar
do desfilar voraz
compacto
ombro a ombro braço a braço
grito a grito
que ficará no silêncio estéril do meu quarto
sem ver sequência no tempo dado
sem ver sementeira e só queixume
e sentir que logo mais logo um dia vai nascer
e eu na mesma

queixoso cansado adiado
sem enxada nem arado nem coisa nenhuma

e a multidão que faz a multidão
a esta hora em que me devora a noite(?)

sinto-me tão atrapalhado

Se eu lhe dissesse baixinho
naquele ouvido branquinho
arrepiado em sussurro
tão agradado em sorriso
o que lhe queria dizer

mas por onde começar
sinto-me tão atrapalhado
talvez para impressionar
uma história de pasmar

eu perdido num campo
território francês
anarquistas cabeludos
políticos fartos discursos
eu na tenda ensaiando
um caminho sem futuro

ou a outra em que estava
bandeiras berrantes cores
alaridos ruas apitos
intensa berraria gente
carros tanques e gritos
para derrubar o presidente

ou a aventura em África
calor tórrido eu no mato
guerra aberta eu corria
tiros mortos muitos feridos
em um silêncio de morte
uma emboscada na vida

e neste desfiar de rosário
de que modo impressionar
dei-me conta a transpirar
cansado de tanto pensar
que a carinha afastava
levando o ouvido e o sorriso
incapaz de aguentar
o meu silêncio deprimido

e era tão simples o que lhe queria dizer

liberdade a quanto obrigas

Liberdade nunca é demais
há quem diga
mas se a liberdade é demais
cada um para sua banda
acaba tudo aos ais
sozinho e sem comando

sou tão linda danço bem
eu sou toda exigente
não me dou a qualquer um
eu cá sou toda peixeira
ninguém ouve mas eu falo
pois a mim ninguém me cala
eu encosto ali ao canto
durmo e descanso deitado
e assim faço o que posso
a mais não sou obrigado

tal qual manta de retalhos
uma liberdade sem leme
cada retalho faz falta
a manta precisa deles
mas depois tão separados
tem que haver quem os ajunte
coitados

neste propósito lembrei
que certas modalidades
em desporto conjugam
e bem
figuras livres e também
figuras obrigatórias

que liberdade demais
leva a grande solidão
como levava o degredo
em regimes de opressão

e olho aqui para nós
viveiro de tantas cores
sonhos e tantos calores
retalhos de tanto lado
só com ampla liberdade
sem nada de obrigatório

um dia destes cansados
de coração destroçado
livres exangues num canto
acabamos entregados em gang
ou seita quem sabe

e como um bem abraçamos
rezar em êxtase em vómito
ou o alheio roubar
e mobilizados lutamos
contra a liberdade que fomos
sem nada por que lutar
e em que nos sentimos tão sós

mudar o lado do disco

Custa tanto a perceber
nesta vida que levamos
tantos conceitos cansados
tantos hábitos repetidos
má tradição feita vício
que tardamos a aprender
mudar o lado do disco

tardamos em perceber
que do outro lado existe
uma atitude fantástica
um renascer com mudança
que pode muito bem ser
a terapia acertada

uma questão de atitude
de um lado o disco riscado
que chatice mais um dia
problema e mais problema
tanto esforço em vale de lágrimas

do outro feito arco íris
toque de deusa e de fada
cada dia é uma dádiva
cada dia tem cá tudo

o sabor amargo expira
o sol nasce e nos inspira
vida vida e mais vida

a música toca e anima
o rio lama já cansa
optimismo contagia
vira o disco e caminha
rio de amor abundância
vira lado positivo
descobre a criação perfeita

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...