segunda-feira, maio 19, 2014

Subir para cima e descer para baixo?


Pleonasmos ou redundâncias: com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.                                    

Aqui vão quatro exemplos óbvios:

“Subir para cima”,
“descer para baixo”,
“entrar para dentro” e
“sair para fora”.


Já se reconhece como paciente ? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a "pleonasmar" sem se aperceber que "pleonasma" a toda a hora.

Vai dizer que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”?
E que nunca partiu uma laranja em“metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?

Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio”de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.

O contágio da "pleonasmite" ocorre em qualquer lado.

Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”.

No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projeto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente.

E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade,
diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?
O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da "pleonasmite", temos más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a "pleonasmite" em direto no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque.
Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai
juntar uma “multidão de pessoas”?

Ao contrário de outras doenças, a "pleonasmite" não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Angolano a "pleonasmar", está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.

Mas como lhe disse no início, o descontrolo da "pleonasmite" pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades.

Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada.
E “já agora” siga o conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a "pleonasmite"!

Ou então esqueça este texto.

Porque afinal de contas  posso estar só “maluco da cabeça”...


 Fiquem bem

António Esperança Pereira

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