
De ingénuos todos temos um pouco, de distraídos também, medo e coragem todos temos. Vencido o medo solta-se uma coragem dos diabos!
Eu sabia tudo isto desde há muito tempo. Cresci numa DITADURA, a de Salazar e os que com ele foram colaborando.
Devo dizer que para nós, lusos, era muito mau viver assim. Super atrasados, os estrangeiros tinham pena de nós, não havia liberdade de expressão, de opinião, de reunião, de circulação... ou seja só havia liberdade para fazer o que o regime deixava que se fizesse.
Apesar disso, nunca vi aparecerem democracias mais próximas ou mais longínquas dar uma mãozinha, um empurrão forte para forçar a queda de um tal regime caduco, atrasado, opressor, repressivo, cheio de detidos, presos, deportados, ameaçados, militares contrariados, organizações de juventude fascistas.
Essas Democracias mandavam umas bocas pouco mais.
Eu era ingénuo, novo, distraído, não compreendia porquê.
Ainda por cima eram os soviéticos, os tais vermelhos maus, comunistas, bolchevistas etc etc. quem na altura mais apoiava e influenciava directa ou indirectamente a libertação dos oprimidos (colónias) e consequente queda do regime Salazarista, no caso português.
Se na altura isso me baralhava, agora sinto-me perfeitamente esclarecido.
Basta olhar para as ditaduras do Médio Oriente, ultimamente tão mediáticas, para ter a resposta.
É que hoje sou menos novo, menos ingénuo, menos distraído.
Em boa verdade se diga que para as "DEMOCRACIAS" há "DITADURAS BOAS E DITADURAS MÁS", consoante os interesses já se vê, não as convicções, os ideais.
Não ajuda a separar as águas, é muito mau para a DEMOCRACIA!
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Deixo um poema:
Fronteira de Vilar Formoso
Agora entendo o sítio berço onde nasci
e porque lá nasci
pedras urzes muito tédio
atraso enxada arado e rebanhos
muito o suor poucos os ganhos
em trabalho sol a sol
um presente sem porvir ali
trocava-se tudo por um caminho de França
chão família amigos
também os cães da altura
abutres canibais
que faziam do país o que era então
um estéril chão
triste acabrunhado
pides passadores famintos trabalhadores
levados como gado e despejados
nos esgotos de Paris
nos bidonvilles
bravos portugueses despojados
rotos de roupa
botelha sem vinho
boca sem naco de toucinho
nasci por ali Vilar Formoso
fronteira de Deus e do diabo
trem solitário mãos saudade
que tão tristes iam
emigração clandestina a salto
dos tais vigaristas passadores
que tiravam a pele o osso
todos os vinténs a trabalhadores angariados
a diferença que havia logo ali
raia de Espanha desolada e fria
do lado de lá e do lado de cá
uma estrada larga rica grosso asfalto
do lado de lá
a contrastar com a estradita estreita pobre
pintada de negro esburacada
a fingir que era asfaltada
do lado de cá
não condeno os abutres canibais
os que bem se governavam
no quanto pior melhor
eram do regime tosco maltrapilha
os labregos de fato e de chapéu
que exploravam do povo seu suor
condeno sim os que viam vergonha em tal atraso
(e viam bem porque doía)
acharem hoje nosso progresso modernice
um exagero destemperança
amplas rodovias
fronteiras desaparecendo
mais igual em tudo o cá e o lá
gente livre que sai que vai que vem que passa
sem policiais vigaristas aproveitadores
do país com medo de outro tempo
tempo e atraso de que só pode gostar
um saudosista louco
um triste um mentecapto
alguém que por zangado e frustrado
nem consegue distinguir deus e o diabo
nasci por ali ainda bem
hei-de contar o que então vi e o que ora vejo
hei-de lembrar memórias que não esqueci
de um país salazarento sórdido doente
um intervalo Portugal adiado
hoje aqui meu país de Abril
moderno livre aberto e atraente
país que enfim retoma
o caminho o sonho a aura a glória
que a história lhe confiara dantes.
António Esperança Pereira em livro a publicar brevemente
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