sexta-feira, maio 23, 2008

o livre arbítrio

Mandei-te uma mensagem
não respondeste
não sei se queria resposta
e se quisesse
nem sei que resposta queria

do teu lado há medo
defesa julgamento
tu que teoricamente
pugnas por não julgar

não deixa no mínimo
de ser patético irónico!

tu que queres amar amar
incondicionalmente
e controlas o mais simples pormenor
sem ao menos soltar
o livre arbítrio

que dá para pecar
cometer erros naturais

depois em oração
meditar despenalizar
pois se deus nos criou com erros
não é por os cometer
que nos vai condenar

não estamos na pré-história
nem tão pouco no século trinta e um
mas para ser franco
e apesar de mais albardas e arreios
mais escolhas agora do que dantes

o que me parece
é que nem na pré-história
nem no século trinta e um
se percebeu ou se perceberá
patavina
sobre o livre arbítrio

perseverança

Não há vida sem chuva
pedras granizo trovoada
um cabo das tormentas
um vulcão

mas atenção
que é o medo
que em dada ocasião
pode impedir-te de aceitar
que o céu voltará a clarear

que o pesadelo irá passar

Deus existe por definição
nos momentos maus e bons
como os chamamos
em humano entendimento

não percas pois em desalento
o teu centro
a estrutura

porque em tempos mais adversos
pode ser suficiente
para um presente mais maduro
renovado
situado no futuro

se prosseguires o teu propósito
com bravura de alma
após contornares os obstáculos
encontrarás teu sonho

terça-feira, maio 20, 2008

pode o milho parecer trigo?


Pode o pequeno rio parecer grande?
ou o milho parecer trigo?
ou a rosa um malmequer?

o rio pequeno é apenas um rio pequeno
não fica triste por isso
nem contente
apenas é o que é
mais nada

assim acontece com o milho
com a rosa o malmequer
com as coisas todas que não pensam

os ciclos das estações
as pedras os outeiros
o sol a lua
o vento

para essas coisas
"ser"
nada tem a ver com
"parecer"
são natureza e a natureza só sabe SER

imagine-se o que seria um rato
querer parecer um elefante!
ou um leão travestido em borboleta!

a inteligência humana tem o condão
de criar a ilusão
mas na realidade temporal
as coisas são o que são mais nada

tudo o resto é só desgaste
exercício fantasia em faz de conta
para enganar o tempo de cada um
que é tão breve!

que cura para tanta inquietação

Que cura para tanta inquietação?

virar estátua
meditar
ficar em pose buda paz total?

convento só sem nada para ter
ermo triste abandonado
desolado?

ou girar?
seguir o vento forte
pulsar
sentir sempre a intensidade do lugar?

refilar ousar protestar
guerrear conquistar
ser assim um cata-vento
em forma de gente
a rodar a rodar
sem nunca mais parar?

com tanto movimento
ocupação
densa intensa
o juízo voando
em cabeça à roda

é bem possível
que a lucidez se vá embora

e com ela tanta inquietação!

quero ou não quero

É na espera que surge a dificuldade

o aumento do NÓS
que vemos no espelho
e de que gostamos menos
desencadeia o medo do que vai acontecer

que vão pensar?
que vou dizer?

perde-se o centro do ser
tremelicamos
hesitamos
quero ou não quero?
preciso ou não preciso?

e na dúvida
porque o medo paralisa
desistimos
regredimos

fica uma espera e uma luta por travar
que nos volta a colocar
em nova espera
nova luta por travar

e a dúvida a persistir!

sou capaz?
é o que quero?
volto para trás?

das duas uma...

ou desisto de vez
ou aceito enfim o passo tímido
o fracasso
o desencontro
como rituais normais
e necessários
do processo vivencial

domingo, maio 18, 2008

coitado do vulcão


Coitado do vulcão
adormecido dez mil anos!
tanta barriga cheia de vómitos
diarreias por sair

que raiva que ódio que rancor acumulados
naquele monte estéril esquecido
desistiu seguramente no percurso
meteu para dentro não disse sim ao desabafo
teve medo interiorizou

ao fim de tantos anos foi o que se viu
não aguentou mais um segundo
e foi então que em raiva medo
fúria de tempo perdido
explodiu encosta abaixo

o vulcão agora em agonia chora
chora fogo e não água
mete medo
desconforme encolerizado revoltado
não foi capaz de soltar
em lágrimas normais
a evolução natural da sua índole de vulcão
pela vida fora

agora não aguentou mais
mata incendeia assusta
qual animal feroz
a quem o tempo de clausura
tornou num animal voraz

o mesmo acontecerá a cada um de nós
se em vez de se soltar desabafar
na altura própria
se engolir o grito e se calar a voz

uma viagem sem querer


Uma viagem sem querer
no conhecer um sítio diferente
entender o que se diz sem entender
ver com os olhos tanta coisa
sem compreender

aperceber-se da história infinda do país
das diferenças todas dos locais
faz-nos sentir o que quisermos ser

ou uma criança dando os primeiros passos

onde estou?
onde vou?
que faço?

ou um analfabeto

mal sei falar
mal sei andar
não sei o que comer
como pedir

tanto posso sentir graça nisso
em ser analfabeto
em ser criança

como me posso sentir mal
desajeitado
incipiente
perceber que só sou gente
no lugar que me viu nascer que me conhece

lá pareço um rei
aqui neste país não sou ninguém
estou nu

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...