terça-feira, dezembro 06, 2005

mãe solteira

foi de repente
lá na terra
que a moçoila mais linda
mais amada
mais folgazona
mais anjo
virou diabo sacrilégio amante
puta
só porque caíu na asneira
de ser mãe solteira
por ter amado alguém e ter-se dado

gostar dela agora como se gostava dantes
quando no rancho pulava dançava e era bandeira
é arriscar meter em sua casa
ditos mexericos
estar com o pecado e a desonra à sua porta

coitada da Rosita
nem parece ela
emagreceu não sai de casa
o próprio pai
homem honrado mal lhe fala

secou-lhe o olhar e o rosto
de quem parece ter vivido e não viveu
murchou a pequena Rosa
e assim com o dedo apontado
um filho nos braços
um desdém que mata
Rosita foi crucificada

não aguentou a ideia de matar-se
nem a de viver ali

fugiu para a cidade
e lá tudo é mais fácil
é prostituta
droga-se
e ninguém liga

ciclo do guerreiro

para que a conquista saiba bem e apeteça
tem que ser difícil
que o diga o nosso primeiro rei
conquistador
afiando a espada contra a mãe
ajeitando o escudo
lutador
lavado em sangue em suor
em pesadelo
zás trás catrapás
não deixava no lugar a mais perfeita das cabeças
e lá seguia com os outros
dando e levando
levando e dando
era assim a vida de conquistaa
dura difícil
depois sim
resolvida a contenda
na penumbra recatada do castelo
que bem que saberia ao nosso rei
cantar glória rodeado de ninfetas
embebido em fantasias
no ócio bom de quem só quem dá no duro
tem
era ver nas ameias altaneiras
os risinhos fraldiqueiros
e os êxtases quentinhos
a fazerem correr D. Afonso
descomposto e ofegante
pelos cantinhos
e o prazer que a coisa dava
tinha índices tamanhos
e tais desmandos
que logo o tédio chegava
e um tal cansaço nos guerreiros
de enjoos vómitos
caganeira
deixava adivinhar nova peleja
e o ciclo recomeçava
a partida dos heróis
o choro das ninfetas
o regresso dos heróis
e a recompensa

sábado, dezembro 03, 2005

guardar o essencial

não vou procurar mais por opção
antes reduzir caminhos
guardar o essencial
talvez alivie assim o coração
e torne a vida mais sensata

há escolhas a fazer e vou fazê-las
a dispersão cansa
e não há tantas mãos assim
para agarrar tudo
vou ter que deitar coisas fora

começarei por ti
que foste estrada
sonho
um lugar movido pelo desejo

que encheste de fantasia um tempo
um espaço
uma loucura
(até me convenci de que eras possível)

começarei por ti
porque és um caso difícil
sempre adiado
e ocupas muito espaço com muito vazio

mesmo assim
não poderei dispensar-te depressa
virar simplesmente a página

não
vou fazer como um fumador que conheço fez
deixou de fumar reduzindo a dose
lentamente
até que fumou o último cigarro

e teve o cuidado
mesmo já vencido o vício
de trazer sempre cigarros consigo
com medo que lhe fizessem falta

assim eu farei contigo

ter ter e ter

a quantidade não leva a lado nenhum
o exagero
o carro à frente dos bois
o ter e ter e ter
o mais e mais e sempre mais

o cansaço que vem depois
a loucura que é deixar de ver
sem tempo nem jeito para sentir

é como estar sempre a fazer a prova oral
o exame difícil
levar inquietação ao lugar da paz
confusão ao recanto mais simples

sem reparar
que à distância de um braço
pode haver uma flor

e regá-la para não morrer
pode ser
o mais lindo acto de amor

rádio e televisão 2002

concurso do melhor orgasmo
com viagem prometida aos vencedores
filmes pornográficos com dados e estatísticas
pontos altos de masturbação
a filha mais puta do ano
rádio e televisão 2002

o antídoto ao Cristo triste
que morreu na cruz para nos salvaar
mas que se lixe

não se mantêm atentas audiências
com missas pregadores
sonhos de santos implorando aos céus
ou revendo as cenas dramáticas do Calvário

já nem um bom romance tem adeptos
ou uma conversa amena em que se aprende

um dia destes deito a alma fora
porque não serve mais ter alma
nem decência

a grande moda agora é a decadência
e viver com ela
e morrer com ela

o quintal de minha mãe

com os sons diários da metralha
o contar de espingardas
o gigante da fome
a violência vendida em troco de audiência

não fazem mais sentido
os dias bonitos das ilhas do Pacífico
os lugares mansos e sagrados
os ribeiros virgens vertendo melodia
o branco puro e angelical dos picos das montanhas

morreram dez?
morreram mil?
a quem importa?

que a morte chegue por má sorte
que a morte chegue quando é chegada a hora
que se dane
mas nascer e encontrar logo à sua porta
um lamaçal
uma espingarda
um nojo de vida
um quintal em que as flores são corpos matados
do pai do irmão do amigo

o que nos faz ser assim gente
tão brutos cruéis e assassinos?
será que não há no coração do mundo
amor que baste para virar as coisas do avesso?
não há ninguém que diga o que se faça?

a partir de hoje
quando me disserem
que o senhor A
o senhor B
são pessoas de grande inteligência
e se tudo continuar na mesma
só posso soltar uma gargalhada com a inteligência deles
e olhá-los com convicto desprezo

cada vez mais
apetece recordar o quintal de minha mãe
onde as flores eram lindas
porque punha nelas muito amor
e as abelhas apareciam atraídas pelo cheiro
e pela cor
e davam mel

se a minha mãe pudesse
semearia pelo mundo os seus quintais

sexta-feira, dezembro 02, 2005

a ti Filipa

tens uma palavra quente e meiga
um nome que me faz tremer
uma auréola de enigma
de morrer

apetece sei lá seguir teus passos
ver o que tu vês
amar a quem tu amas
sentir por ti
o coração em chamas

caminhar sempre
subir descer andar
seguir ao pé de ti
como quem sente
que nada cansa nem o cansaço do próprio caminhar

e no fim da caminhada
que aconteça longa
(para os meus sentidos branda)
cair em teus braços abraçado
e fazer contigo
em silêncio sossegado
TUDO
e ao mesmo tempo nada

Publicação em destaque

Livro "Mais poemas que vos deixo"

Breve comentário: Escrevo hoje apenas meia dúzia de palavras para partilhar a notícia com os estimados leitores do blogue, espalhados ...