Lembro a sala fechada
trancada
recheada de móveis e valores
de coisas valiosas boas
que em menino quase nunca
vi aberta
também o quarto reservado
a familiar ilustre
que de quando em vez aparecia
vindo de Lisboa
restava-me a cozinha
o corredor
um quarto escuro
e pouco mais
eu que era passarinho
livre
que tinha ganas de voar
parecia quantas vezes
morcego triste em noite escura
a esbarrar num espaço curto
"ali não mexas
ali não vás"
ouvia!
eu espreitava pela porta
e via lá fora
um mundo de luz
imenso
que começava num pátio
e continuava pelo campo
com barulho de gente
até ao silêncio distante
do espaço
como entendo hoje
a necessidade permanente
de ultrapassar o horizonte
correr mundo
ver gente
de ficar inquieto
quando penso
que em tantos lugares
esse horizonte ainda é curto
fechado triste
como a casa trancada cinzenta
o quarto escuro
onde em menino cresci
teoria e prática
Há 3 horas






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